quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ELUCUBRANDO SOBRE A LINGUAGEM E UM POUCO MAIS

por Fernando Antoniazzi
 Os Americanos têm o péssimo costume de não adotar a Língua Portuguesa como idioma oficial. Como podem preterir a magnífica musicalidade da ‘última flor do Lácio, inculta e bela’, em favor de uma mistura de onomatopéias, guturalismos e atualmente açodada com mais acronismos derivados da linguagem das redes sociais, embora exista o precedente de que os americanos já adotassem muitas siglas para tornar a comunicação mais prática. Sim, prática, rápida, eficiente e pobre.
Bem, este último aspecto não empobrece somente o verbo shakespeariano, posto que seja este um fenômeno de ocorrência mundial, são diversos idiomas sujeitos a isto. A propósito, algo de muito estranho e mais grave está ocorrendo, posto que frases completas estejam a ser substituídas por figurinhas e animações oriundas da comunicação nas ‘redes sociais’; o que enseja uma conclusão pesarosa: o espírito das pinturas rupestres das eras ancestrais à escrita está de volta, permeando as telinhas dos smartphones e congêneres, caracterizando um fenômeno involucionário.
A humanidade levou milhares de anos para criar códigos visuais e fonéticos, de modo a melhor estabelecer a comunicação entre, ao menos, dois interlocutores e, em pouquíssimo tempo, está ela a render-se às carinhas e figurinhas ‘Emoticons’ para fazer-se entender. As tais figurinhas são até mesmo simpáticas e ajudam a enfeitar ou emprestar humor a uma mensagem descompromissada, mas não têm estofo para substituírem a linguagem ou provocarem a interpretação de um texto... Texto? Ora, mas nem texto são!
Paradoxo outro: nunca antes na história se registrou tanta facilidade na troca de informação e esta jamais foi tão parca ou até mesmo dispensável. O discurso final de ‘O GRANDE DITADOR’ tornou-se anacrônico, aquele no qual Charles Chaplin discorre sobre rádios, aviões, pessoas que se aproximam, mas abandonam a sensibilidade, abusando do racionalismo. Fosse tal peça escrita novamente, para manter sua linha axial, certamente ao texto caberia abordar que o sentimento está ainda em declínio, mas há o gravame de que o pensamento caminha à inexistência.
Outra para pensar: a letra cursiva foi abolida em vários rincões. O teclado sobrepujou o papel e a pena... O discurso politicamente correto do marketing ecológico talvez use isto como trunfo: paperless, o futuro chegou; as árvores estarão preservadas dos escribas, os machados estarão banidos; papiro, nunca mais... Gutenberg, aquieta-te e guarda tua prensa! Apenas por exercício de pensamento, lembremo-nos de que a caligrafia também se presta ao estímulo dos movimentos delicados das mãos, refiro-me à precisão dos gestos obtida pela derivação da estrutura que opõe o polegar aos outros dedos da mesma mão, coisa ausente na natureza dos demais primatas. Ah, sim, a robótica, a cibernética e a mecatrônica já resolveram a questão por intermédio de joysticks... Está cada vez mais difícil ser apenas humano.
Que confusão! Estamos vivendo tempos em que colocamos a perder a humanidade, arrogantemente brincamos de divindade e tornamo-nos cada vez mais vazios, distantes do nosso próximo e, por conseguinte, afastamo-nos de Deus.
No dia de hoje, ao completar minha quinquagésima-primeira volta em torno do Sol, fluiu assim esta breve digressão, sem expressão maior, tão somente um flatus animae, um brainstorm de quem dobrou o Cabo da Boa Esperança e muitas vezes não gosta do que vê no espelho, seja a imagem exterior ou a interior.
Artigo publicado em 

MÁS LÍNGUAS
João Pereira Coutinho, em 05 de outubro de 2106

Durante uns tempos, desconfiei: entrava no restaurante, sentava-me, traziam-me o cardápio, encomendava. E o empregado trocava os pratos ou esquecia-se de alguma detalhe (bem passado, mal passado).
 
Agora, não há qualquer dúvida: são raros os lugares de Portugal onde sou compreendido (no Brasil, obviamente, sou um marciano). Podem ser restaurantes. Livrarias. Supermercados. Falo, falo – e o pessoal fica com o rosto estático, suspenso, em pânico. Alguns pedem ao colega do lado para anotar o meu pedido. Já pensei em usar um bloco de notas, como se sofresse de mudez patológica, e passar a comunicar-me por escrito.
 
O português que eu falo e o português que se usa já não são a mesma língua. É como nos filmes fantasistas onde um personagem do século XIX viaja no tempo e aparece no século XXI. As minhas frases costumam ter princípio, meio e fim. Ainda faço questão de declinar correctamente os verbos. Uso certas expressões de cortesia (“Seria possível...”, “Creio que o melhor...”, etc. etc.). Ontem, no café, cometi a imprudência de dizer que não precisava de açúcar (“Dispenso, obrigado”) e o dono replicou (“Quer ou não quer?”). Terminei o diálogo com um gesto símio de recusa e ele ficou aliviado.
 
Verdade que a incomunicabilidade é recíproca. Eu também não entendo o que me dizem. Apenas escuto um som gutural que tem em mim o mesmo efeito que os trovões para os homens do Paleolítico. Fico aterrado. E quando peço, a medo, para repetirem a frase, descubro que a dita cuja não é uma frase. É um vocábulo atirado ao vento com uma mistura de desprezo e cansaço. Como explicar isto?
 
Não tenho uma teoria. Mas desconfio que o abandono de uma cultura verbal e até literária para um mundo exclusivamente visual e digital explica a regressão. Ainda me lembro, com saudade, dos tempos em que as mensagens de telemóvel ou email eram simplificadas até à anedota. Palavras reduzidas a letras – o “que” virava “k” e o diabo a quatro. Bons tempos.
 
Hoje, nem isso: as mensagens surgem exclusivamente construídas com imagens e só os filhos dos meus amigos são capazes de decifrá-las.
 
Se a coisa continua, desconfio que acabaremos a comunicar através de pinturas rupestres, tal como os nossos antepassados pré-históricos. Exagero? Talvez. Mas, pelo sim, pelo não, vou dar um salto a Foz Côa para aprender qualquer coisinha.