sábado, 18 de abril de 2015

POVO E RALÉ

ESCRITO POR OLAVO DE CARVALHO | 17 ABRIL 2015 

Karl Marx podia ter todos os defeitos do mundo, desde a vigarice intelectual até as hemorróidas, mas ele sabia que a palavra “proletário” significa “gente que trabalha” e não qualquer Zé-Mané. Ele combatia o capitalismo porque achava que os ricos enriqueciam tomando o dinheiro dos pobres, o que é talvez a maior extravagância matemática que já passou por um cérebro humano, mas, reconheça-se o mérito, ele nunca confundiu trabalhador com vagabundo, povo com ralé.         


Alguns discípulos bastardos do autor de “O Capital”, uns riquinhos muito frescos e pedantes, fundaram um instituto em Frankfurt com o dinheiro de um milionário argentino e resolveram que valorizar antes o trabalho honesto do que os vícios e o crime era uma deplorável concessão de Marx ao espírito burguês. Usando dos mais requintados instrumentos da dialética, começaram ponderando que o problema não era bem o capitalismo e sim a civilização, e terminaram tirando daí a conclusão lógica de que para destruir a civilização o negócio era dar força aos incivilizados contra os civilizados.

        
Os frankfurtianos não apostavam muito no paraíso socialista, mas acreditavam que a História era movida pela força do “negativo” (uma sugestão de Hegel que eles tomaram ao pé da letra), e que portanto o mais belo progresso consiste em destruir, destruir e depois destruir mais um pouco. Tentar ser razoável era apenas “razão instrumental”, artifício ideológico burguês. Séria mesmo, só a “lógica negativa”.

         
A destruição era feita em dois planos.

         
Intelectualmente, consistia em pegar um a um todos os valores, símbolos, crenças e bens culturais milenares e dar um jeito de provar que no fundo era tudo trapaça e sacanagem, que só a Escola de Frankfurt era honesta precisamente porque só acreditava em porcaria – coisa que seu presidente, Max Horkheimer, ilustrou didaticamente pagando salários de fome aos empregados que o ajudavam a denunciar a exploração burguesa dos pobres. Isso levou o nome hegeliano de “trabalho do negativo”. A premissa subjacente era:

         
-- Se alguma coisa sobrar depois que a gente destruir tudo, talvez seja até um pouco boa. Não temos a menor idéia do que será e não temos tempo para pensar em tamanha bobagem. Estamos ocupados fazendo cocô no mundo.

         
No plano da atividade militante, tudo o que é bom deveria ser substituído pelo ruim, porque nada no mundo presta e só a ruindade é boa. A norma foi seguida à risca pela indústria de artes e espetáculos. A música não podia ser melodiosa e harmônica, tinha de ser no mínimo dissonante, mas de preferência fazer um barulho dos diabos. No cinema, as cenas românticas foram substituídas pelo sexo explícito. Quando todo mundo enjoou de sexo, vieram doses mastodônticas de sangue, feridas supuradas, pernas arrancadas, olhos furados, deformidades físicas de toda sorte – fruição estética digna de uma platéia high brow. Nos filmes para crianças, os bichinhos foram substituídos por monstrengos disformes, para protegê-las da idéia perigosa de que existem coisas belas e pessoas boas. Na indumentária, mais elegante que uma barba de três dias, só mesmo vestir um smoking com sandálias havaianas -- com as unhas dos pés bem compridas e sujas, é claro. A maquiagem das mulheres deveria sugerir que estavam mortas ou pelo menos com Aids. Quem, na nossa geração, não assistiu a essa radical inversão das aparências? Ela está por toda parte.

         
Logo esse princípio estético passou a ser também sociológico. O trabalhador honesto é uma fraude, só bandidos, drogados e doentes mentais têm dignidade. Abaixo o proletariado, viva a ralé. De todos os empreendimentos humanos, os mais dignos de respeito eram o sexo grupal e o consumo de drogas. De Gyorgy Lukacs a Herbert Marcuse, a Escola de Frankfurt ilustrou seus próprios ensinamentos, descendo da mera revolta genérica contra a civilização à bajulação ostensiva da barbárie, da delinqüência e da loucura.  

         
Vocês podem imaginar o sucesso que essas idéias tiveram no meio universitário. Desde a revelação dos crimes de Stálin, em 1956, o marxismo ortodoxo estava em baixa, era considerado coisa de gente velha e careta. A proposta de jogar às urtigas a disciplina proletária e fazer a revolução por meio da gostosa rendição aos instintos mais baixos, mesmo que para isso fosse preciso a imersão preliminar em algumas páginas indecifráveis de Theodor Adorno e Walter Benjamin, era praticamente irresistível às massas estudantis que assim podiam realizar acoincidentia oppositorum do sofisticado com o animalesco.   Com toda a certeza, a influência da Escola de Frankfurt, a partir dos anos 60 do século passado, foi muito maior sobre a esquerda nacional que a do marxismo-leninismo clássico.

         
Sem isso seria impossível entender o fenômeno de um partido governante que, acuado pela revolta de uma população inteira, e não tendo já o apoio senão da ralé lumpenproletária remunerada a pão com mortadela e 35 reais, ainda se fecha obstinadamente na ilusão de ser o heróico porta-voz do povão em luta contra a “elite”.

         
Dois anos atrás, já expliquei neste mesmo jornal (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/140209dc.html) que uma falha estrutural de percepção levava a esquerda nacional a confundir sistematicamente o povo com o lumpenproletariado, de tal modo que, favorecendo o banditismo e praticando-o ela própria em doses continentais, ela acreditava estar fazendo o bem às massas trabalhadoras, as quais, em justa retribuição de tamanha ofensa, hoje mostram detestá-la como à peste.           

O Caderno de Teses do V Congresso do PT é um dos documentos mais reveladores que já li sobre o estado subgalináceo a que os ensinamentos de Frankfurt podem reduzir os cérebros humanos.

Publicado no Diário do Comércio.

sábado, 11 de abril de 2015

APRENDENDO COM O POVÃO

11 de abril de 2015
Aprendendo com o povão
Olavo de Carvalho

            A queda abrupta na audiência da TV Globo ilustra algo que venho dizendo aqui há semanas: a revolta popular não é só contra meia dúzia de políticos ladrões, nem só contra a sra. Dilma Rousseff, o PT ou mesmo o Foro de São Paulo: é contra toda a elite que os protegeu e os legitimou no poder à força de mentiras e desconversas.
            Sempre de joelhos ante as modas estrangeiras mais idiotas, e manipulados por intelectuais ativistas que, a despeito da sua mediocridade, sempre deslumbraram as suas mentes ainda mais medíocres, os donos dos nossos meios de comunicação puseram todos os seus formidáveis recursos a serviço de uma “revolução cultural” cuja simples existência ignoravam e que foi, aliás, concebida precisamente para ser levada a cabo por idiotas úteis que a ignoravam.
            Antonio Gramsci é bastante explícito quanto a esse ponto: não se trata de “conquistar corações e mentes”, como afirmou esse asno pomposo que ocupa o Ministério da Educação, mas, bem ao contrário, de fazer com que “todos sejam socialistas sem sabê-lo”, de dominar o “senso comum” a tal ponto que massas inteiras da população repitam chavões e slogans sem ter a menor idéia da sua origem e da sua função num plano estratégico de conjunto.
            A diferença entre o antigo militante proletário conquistado para a causa do comunismo e o moderno servidor da revolução cultural é tão imensurável que, por si, basta para ilustrar a elasticidade psicopática da mente revolucionária, sempre pronta a trocar de atitude, de discurso e de valores cada vez que julga isso necessário para o aumento do seu poder. O primeiro decorava manuais de marxismo-leninismo, era hipersensível ao menor desvio da ortodoxia partidária e proclamava orgulhosamente sua condição de comunista militante, sacrificando bens, vida, honra e liberdade, tudo pela causa. Em volta dele existiam, é claro,  alguns idiotas úteis sem cultura marxista, que se associavam à luta por motivos subjetivos totalmente estranhos ao marxismo, que levavam o militante genuíno às gargalhadas.
            Na militância gramsciana, as proporções inverteram-se:  o grosso da contingente compõe-se de idiotas úteis, os militantes doutrinados reduziram-se a uma discreta elite dirigente que não faz a menor questão de que seus seguidores saibam por que a seguem.
            Os motivos subjetivos, que antes eram apenas acréscimos acidentais ao corpo da luta revolucionária, tornaram-se a propaganda oficial, que na mesma medida perdeu toda unidade e coerência, estilhaçando-se numa poeira alucinante de chavões e cacoetes mentais desencontrados, bons para todos os temperamentos e preferências, incluindo a expressão histérica das insatisfações mais fúteis que o marxista puro-sangue de antigamente desprezava como “pequeno-burguesas”.
            A pessoa e os feitos do sr. Jean Wyllys ilustram esse estado de coisas da maneira mais didática que se pode imaginar. Na sua ânsia de juntar num front comum tudo quanto lhe pareça anti-ocidental e anticristão, ele exige que as escolas esmigalhem de vez os cérebros das crianças com aulas simultâneas de gayzismo e de islamismo.  Cada pequeno brasileiro será portanto informado de que ele deve fazer aquilo que, se ele fizer, será punido com pena de morte.
            Às vezes as pessoas clamam contra a “doutrinação marxista” nas escolas, mas “doutrinação” é eufemismo: os tempos da doutrinação já passaram. O que ali se faz é infinitamente mais destrutivo do que qualquer doutrinação. Pascal Bernardin, no livro Maquiavel Pedagogo (v. https://www.facebook.com/maquiavel.pedagogo/videos), descreveu em minúcias como as técnicas adotadas na educação das crianças hoje em dia são calculadas para induzir mudanças de comportamento sem passar pela aprovação consciente. Não se trata de “conquistar corações e mentes”, mas de adestrar os corpos no aprendizado da macaquice.
            O apelo à consciência é cada vez mais reduzido, ao ponto de que aquele que passou por esse treinamento se torna incapaz de perceber as mais grotescas incoerências no seu discurso, mesmo quando elas tornam irrealizável na prática aquilo que ele proclama como seu sonho e ideal. O sr. Jean Wyllys é o produto perfeito e acabado de um sistema de ensino montado para produzir idiotas úteis em escala industrial.
            É evidente que, abolido o confronto ideológico explícito, dissolvida a ortodoxia marxista num farelo de esterótipos para todos os gostos, cada freguês podendo escolher à vontade os “direitos humanos”, a “anti-homofobia”, o “anti-racismo”, o culto de uma lendária superioridade espiritual do Oriente, a mitologia indigenista, a liberação das drogas, os delírios da New Age, o ressentimento feminista, o islamismo ou tudo isso de uma vez, o mero fato de um sujeito ser pessoalmente um bilionário capitalista, e eventualmente o dono de uma rede de canais de TV, não o torna imune, no mais mínimo que seja, à contaminação de uma lepra mental que assume todas as formas e o assalta por todos os lados.
            Foi assim que os donos da mídia, sem percebê-lo nitidamente, e até mesmo negando-o peremptoriamente, se tornaram servidores da “revolução cultural” que os abomina e despreza ao ponto de imaginá-los – pasmem! – responsáveis pelos movimentos de protesto anti-PT. O sr. João Pedro Stedile proclamando “A Globo fez tudo isso”, ao mesmo tempo que os manifestantes escorraçavam os repórteres da Globo a cusparadas – eis uma cena representativa da confusão monstruosa que o gramscismo produziu na mente brasileira.
            Enquanto os “intelectuais” e “formadores de opinião" mostravam cada vez mais nada entender do que estava acontecendo, exemplificando eles próprios o estado de turva inconsciência reinante, o povão, quase por milagre, apreendeu a unidade oculta por trás dos rostos cambiantes e inumeráveis do seu inimigo, e se voltou contra ele com uma determinação e uma coragem admiráveis.



            Domingo ele vai nos dar mais uma lição a respeito.

Fonte: Publicado no Diário do Comércio.

sábado, 4 de abril de 2015

REFLEXÕES SOBRE O TERRORISMO

"A complacência de hoje se paga com as angústias de amanhã. E se ela persiste, com o sangue de depois de amanhã" (SUZANNE LABIN, livro "Em Cima da Hora").

Por Carlos I. S. Azambuja

- Dificuldade de um Conceito

Inicialmente deve ser dito que todas as opções para o combate ao terrorismo internacional são conflitantes, em graus variados, com objetivos de política exterior, econômicos ou de políticas domésticas.
Por isso, definir o que seja terrorismo de uma forma aceitável a todas as pessoas e Estados não é uma tarefa fácil, considerando que o termo dá margem a interpretações diversas, pois aqueles que para uns são terroristas, para outros são "combatentes da liberdade".
Até mesmo a Organização das Nações Unidas tem se mostrado incapaz de desenvolver uma definição que distinga o terrorismo de outros crimes. Entretanto, num esforço para estabelecer uma estrutura básica de ação, órgãos estatais e grupos privados envolvidos com análises e acompanhamento de atos terroristas, têm estabelecido definições diversas:
- o FBI, dos EUA, define o terrorismo como "o uso ilegal da força ou violência contra pessoas ou propriedades para coagir um governo, a população ou quaisquer desses segmentos em proveito de objetivos políticos ou sociais";
- o Departamento de Estado dos EUA assinala que o terrorismo "é a violência politicamente motivada e premeditada, perpetrada contra alvos não combatentes, por grupos nacionais ou agentes clandestinos de Estados, geralmente com a intenção de influenciar uma audiência";
- o Centro de Referência de Justiça Criminal Nacional dos EUA diz que "um simples acidente ou uma campanha de violência empreendida fora das normas e procedimentos aceitáveis, é terrorismo";
- finalmente, para a Rand Corporation, o terrorismo é definido "pela natureza do ato e não pela identidade dos autores ou pela natureza de sua causa. As ações são, geralmente, realizadas de forma a alcançar publicidade máxima e os terroristas são, quase sempre, membros de um grupo organizado que, ao contrário de outros criminosos, fazem questão de assumir a identidade de suas ações, considerando que o ato terrorista objetiva produzir efeitos além do dano físico imediato". Em suma, segundo a visão da Rand Corporation, o terrorismo é uma forma de propaganda armada.
O conceito de terrorismo, qualquer que ele seja, vem, no entanto, perdendo significado através dos tempos por força de sua aplicação indiscriminada a toda variação de insurgência, rebelião armada ou conflito civil. Os termos "terrorista" e "terrorismo", com a alta carga pejorativa que carregam, vêm tendo aplicação extremamente ampla, por um lado, e seletiva, por outro, o que não deixa de ter reflexos no plano internacional para oferecer-lhes um combate coordenado. Esses termos vêm sendo transformados, assim em figuras de retórica cada vez mais utilizadas quando se trata de censurar ou condenar um inimigo.
Todavia, o certo é que o objetivo básico do terrorismo é estabelecer um clima de insegurança que facilite a eclosão ou o desenvolvimento de um processo revolucionário. Seus objetivos podem ser tão variados como os fatores que o geram. Entre as metas mais comuns almejadas por indivíduos ou grupos que utilizam o terrorismo estão a derrubada de um governo, a criação de um Estado, a obtenção de autonomia política para uma região, a reivindicação de direitos para minorias raciais ou religiosas, a eliminação de um inimigo político ou a mera vingança contra Estados, pessoas ou grupo de pessoas hostis a quaisquer dessas causas.

Estratégias Utilizadas
            Dois tipos de estratégias vêm sendo, basicamente, utilizadas pelos terroristas que atacam uma sociedade num esforço para causar uma crise de confiança que a comunidade deposita num regime.
            A primeira consiste em direcionar seus ataques aos pilares da sociedade ou do regime que toma como alvo. Isto é, os altos funcionários, os juízes, os empresários e outras personalidades proeminentes, bem como suas famílias. Atacam também prédios públicos, instituições e instalações que desempenham funções importantes e simbolizam a ordem vigente.
            A segunda estratégia consiste em lançar ataques indiscriminados e ao acaso contra a população, visando atingir suas atividades quotidianas, em supermercados, lojas, restaurantes, aeroportos, trens, metrôs e estações rodoviárias e ferroviárias. Nesse caso, o objetivo é fomentar um clima generalizado de medo e o sentimento de que ninguém estará seguro em parte alguma, independentemente de sua importância política.
            O alvo, para os terroristas, é irrelevante, pois não lhes interessa a identidade do cadáver, mas sim os efeitos obtidos, conforme escreveu Carlos Marighela em seu "Minimanual do Guerrilheiro Urbano".
            Uma das principais características do que pode ser chamado de "terrorismo moderno" é a sua internacionalização, resultado de três fatores, até certo ponto complementares:

-        a cooperação existente entre organizações terroristas em diferentes regiões;
-        o fato de Estados nacionais soberanos apoiarem grupos terroristas e utilizarem o terror como meio de ação política, especialmente no Oriente Médio;
-        a crescente facilidade com que terroristas cruzam fronteiras para agir em outros países.

- Características do Terrorismo
            A opção do terrorismo apresenta, para os Estados que dele fazem uso, a vantagem de envolver riscos menores do que os de uma guerra convencional. Além de ser uma forma de ação menos onerosa, apresenta uma característica inquietante, que é a de não reconhecer as normas e regras internacionais para um conflito tradicional. Nesse caso, os alvos normalmente poupados em uma guerra convencional - a população civil, principalmente - são os preferidos dos terroristas.
            Os terroristas - deve ser salientado - não têm origem no proletariado e sim na classe média, pois a causa do terrorismo não é a pobreza e sim problemas políticos e religiosos.
            Nas várias definições correntes, observa-se certa tendência a enfatizar determinado aspecto dos atentados - seja a motivação, alvos visados ou meios empregados - para caracterizá-los ou não como terroristas. No entanto, parece existir uma concordância generalizada de que a motivação política e religiosa é a característica fundamental dos atos terroristas.
            A caracterização de um ato como terrorista depende do ponto de vista de quem analisa uma determinada ação, e a decisão de incluí-la no rol dos incidentes terroristas está, quase sempre, sujeita a uma alta dose de subjetividade. Nesse sentido, aos olhos de um governo ou de um grupo de cidadãos indignados de um determinado país, um terrorista pode ser classificado como um "combatente pela liberdade". Recorde-se que o presidente Ronald Reagan assim denominava aqueles que lutavam, com armas na mão, contra o regime sandinista imposto à Nicarágua na década de 80.

- Meios Utilizados
            Para atingir seus objetivos, os terroristas contam com uma poderosa arma: os meios de comunicação de massa que, na medida em que ajudam a difundir uma atmosfera de medo e insegurança no seio da sociedade, indubitavelmente os beneficiam, pois fornecem a oportunidade para que a sua causa seja apresentada ao grande público e, além disso, conferem certa aura de legitimidade a determinados grupos terroristas, ao entrevistar seus líderes e, especialmente, ao utilizarem seu linguajar característico.
            Os recentes progressos tecnológicos, especialmente no campo da eletrônica e da química, aliados à tendência da moderna indústria à miniaturização de equipamentos sofisticados, têm aberto aos grupos terroristas possibilidades de acesso a material de enorme capacidade destrutiva, como o utilizado para derrubar o avião da Panam, em 1988, em Lockerbie/Escócia: um artefato plástico embutido num rádio de pilha Toshiba.
            Por outro lado, ações terroristas que envolvem o uso de explosivos detonados à distância, aumentam a cada dia (essa forma de terrorismo foi utilizada com freqüência pela Eta-Basca), bem como a possibilidade do emprego de armas químicas por grupos terroristas ou de fanáticos solidários, como ocorreu no metrô de Tóquio, onde foi empregado o gás sarin, por uma seita religiosa.
            Em 1969, um grupo de peritos apresentou a um órgão da ONU um estudo em que constavam os seguintes dados relativos ao custo de uma operação terrorista de grande escala contra a população civil: 2 mil dólares por quilômetro quadrado, se utilizadas armas convencionais; 800 dólares, se usadas armas nucleares; e um dólar, se empregados métodos químicos ou biológicos.

Os Principais Alvos
            Os padrões de comportamento dos terroristas, sobretudo no Oriente Médio, onde a forte influência da religião dita valores morais peculiares e onde os ataques suicidas são comuns, fogem, muitas vezes, à compreensão dos observadores ocidentais.
            Os fortes esquemas de segurança que têm sido montados para proteger personalidades políticas e instalações consideradas alvos em potencial, estariam fazendo com que os terroristas se voltem, com maior freqüência, para alvos inocentes, como o público em geral. Hotéis, aviões, aeroportos, metrôs, passaram, como já foi dito, a ser os alvos prediletos dos terroristas. Recorde-se os ataques perpetrados pelo grupo fundamentalista Al-Qaeda, em Nova York e Washington, em 11 de setembro de 2001.
            Um estudo da década de 80 indicava a existência de cerca de 323 grupos terroristas atuando em, pelo menos, 64 países. Desses, 46 estavam ativos, somente nos EUA. Seitas religiosas, como os xiitas e os sikhs, que nunca haviam utilizado o terrorismo, passaram a fazê-lo. Estima-se que no período 1968-1988 tenham sido realizados 24 mil atentados, 5 mil seqüestros, 800 desvios de aviões comerciais e 500 execuções em todo o mundo, que resultaram em 35 mil mortos e 200 mil feridos.
            Embora os grupos terroristas conhecidos envolvam cerca de 75 diferentes nacionalidades, inegavelmente os mais ativos têm sido os palestinos, sendo que, para os grupos religiosos islâmicos, tanto o capitalismo quanto o socialismo são um mal. Eles dizem agir em nome de Deus, com quem alegam ter ligação direta.
            As organizações e grupos terroristas começaram agindo sem vínculos entre si e sem inspiração e ajuda externa. Hoje, todavia, são coordenados, prestam serviços uns aos outros, emprestam-se homens e armas, compartilham os campos de treinamento e têm por trás de si Estados que os financiam, que lhes dão guarida e os armam, que lhes fornecem documentação e comandam suas operações.

- O Terrorismo de Estado
            A hipótese de que alguns Estados utilizam seus Serviços de Inteligência e outras agências governamentais para se engajarem em atividades terroristas pode ser considerada verdadeira, pois hoje a percepção é a de que o terrorismo vem sendo utilizado, cada vez mais, por governos, como um instrumento de política externa.
            Isso faz com que o fenômeno extrapole a esfera meramente policial e passe a ser encarado como um problema político de alcance imprevisível. Os Estados terroristas mais comumente citados pela mídia por seu apoio ao terrorismo internacional têm sido a Líbia, Irã, Iraque, Iêmen, Síria e, mais recentemente, o Afeganistão. A ex-União Soviética e seus antigos aliados da Europa Oriental, ainda no tempo da Guerra Fria, por sua vez, foram acusados de prover apoio aos grupos terroristas através desses Estados.

- Uma Estratégia de Combate ao Terrorismo
            O terrorismo deve ser encarado e combatido de uma forma total e coordenada, sob pena de fugir ao controle. Uma defesa puramente passiva - o contraterrorismo - não tem constituído obstáculo suficiente para o seu desenvolvimento. O antiterrorismo, ao contrário, sugere uma estratégia ofensiva, com o emprego de toda uma gama de opções para prevenir e impedir que atos terroristas ocorram, levando a guerra aos terroristas. Essa, porém, não é uma tarefa simples, uma vez que, nesse caso, as represálias são levadas a efeito antes que haja qualquer ataque. Antes, portanto, que sejam causados quaisquer tipos de danos. É, portanto, uma resposta sem qualquer ação criminosa anterior. Nesse caso, existe o perigo de que os antiterroristas apareçam, perante a opinião pública, como terroristas, por darem uma resposta a algo que não aconteceu.
            Hoje, por exemplo, o terrorismo mata estrangeiros na Argélia pelo simples motivo de serem estrangeiros, ou praticam atentados contra seus próprios governantes, como foi o caso do assassinato de Ytzhak Rabin, em Israel.
            É impossível proteger por todo o tempo todos os alvos em potencial, ficando assim, sempre, os terroristas, com a vantagem da iniciativa. Para que essa proteção fosse efetiva seria necessário implantar um Estado-policial, exatamente o tipo de situação que os extremistas gostariam que fosse criada para terem um inimigo fascista para combater.
Segundo Jean-François Ravel, no livro "Como Terminam as Democracias", "uma democracia não pode utilizar um cidadão em cada cinco para ser policial; não pode fechar suas fronteiras e restringir as viagens dentro do país; deportar parte da população de uma cidade, se necessário; nem manter uma vigilância constante sobre cada hotel, cada prédio, cada apartamento em cada andar; e nem gastar horas revistando carros e bagagens de viajantes".
            Uma das únicas defesas contra o terrorismo é a possibilidade de realizar uma infiltração a fim de interceptar e conhecer antecipadamente quando e onde um alvo deverá ser atacado. Esse, porém, é um trabalho para um excepcional Serviço de Inteligência, aliado a um componente essencial: vontade política – o que está ficando cada vez mais raro - e decisões que não temam riscos.
            Os esforços no sentido de elaborar uma convenção global sobre medidas de combate ao terrorismo - que envolvem considerações de ordem política, técnica, logística, legal, conceitual, e até mesmo moral - têm esbarrado no problema de definir o que seja terrorismo, uma vez que os chamados Estados terroristas e nações que o apóiam e se valem dele têm assento e voz na ONU. Não há consenso sobre a definição de terrorismo, pois não está claro quem é o inimigo e contra quem o Acordo seria utilizado. Os países árabes, liderados pela Síria e Egito, insistem que haja uma diferenciação entre atos terroristas e ações de movimentos de libertação nacional. É evidente que essa diferenciação teria como objetivo evitar que as ações dos árabes contra a ocupação israelense de territórios palestinos sejam classificadas como atos de terrorismo.
            A União Européia, todavia, após os atentados ocorridos em Washington e Nova York em 11 de setembro de 2001, deu um passo histórico na luta contra o terrorismo, em 6 de dezembro de 2001, ao aprovar uma definição desse delito, comum aos 15 Estados membros.
            Os ministros do Interior e da Justiça europeus, reunidos em Bruxelas pactuaram uma definição coletiva para terrorismo e grupo terrorista que permitirá condenar não apenas as pessoas que lideram grupos terroristas, como também as que forneçam informações ou meios materiais para a prática de atentados, instiguem esse tipo de atividade ou exerçam qualquer tipo de cumplicidade.
            O terrorismo foi assim definido pela União Européia:

            "Os atos intencionais que, por sua natureza ou contexto, possam lesionar um país ou uma organização internacional, quando seu autor os cometa com a finalidade de intimidar gravemente uma população; obrigar indevidamente os poderes públicos ou uma organização internacional a realizar um ato ou abster-se de fazê-lo; ou desestabilizar gravemente ou destruir as estruturas políticas fundamentais, constitucionais, econômicas ou sociais de um país ou de uma organização internacional".

            Considerando não existir, ainda, uma determinação legal internacional sobre o tema, essa definição é considerada importante.
            A definição da União Européia para Grupo Terrorista é a seguinte:

            "Toda organização estruturada com mais de duas pessoas, estabelecida durante certo período e que atue de forma concertada com o fim de cometer delitos terroristas".

            Além disso, as definições aprovadas pela UE também implicam na aplicação das mesmas penas, em todos os países, para castigar os grupos terroristas e os delitos de terrorismo. Nesse sentido, a pena máxima para a direção de qualquer grupo terrorista não poderá ser inferior a 15 anos de prisão, enquanto que para o restante das atividades não poderá ser menor que 8 anos de prisão. Em vão, a Itália tentou impedir que fosse aprovado um projeto relativo a ordens de captura com vigência em todos os países. Todavia, em 12 de dezembro de 2001, intensamente pressionada pelos demais países, decidiu aderir ao Tratado.
            No Brasil, enquanto uma definição não chega, combater o terrorismo com a utilização de todos os meios parece ser uma questão de sobrevivência. A natureza do ambiente sob ameaça configurará os limites do que seja possível e moralmente aceitável fazer. Uma resposta considerada inaceitável, hoje, poderá ser aceitável amanhã, dependendo da ousadia dos terroristas. Aquilo que Israel, por exemplo, considera aceitável no combate ao terrorismo, poderá não sê-lo para outras democracias.
            Por outro lado, a quantidade e a qualidade da Inteligência será sempre julgada aquém do ideal, surgindo daí o perigo de que a constante busca de melhores dados, sempre mais atuais e mais precisos, possa acarretar a perda de uma oportunidade ímpar de agir, o que, em si, poderá causar mais danos do que uma ação baseada em Inteligência incompleta.
            A opinião do autor é a de que o terrorismo e os grupos terroristas devem ser combatidos com todos os meios, até mesmo os legais.