domingo, 27 de abril de 2014

O ZÉ NAS TERRAS DO FAZ DE CONTAS



José Maurício Guimarães


Atendendo a insistentes pedidos, reenvio o texto revisto e ampliado, com as notas explicativas e um ou outro acréscimo no estilo de Juvenal *.

Grande foi a decepção do Zé ao constatar que estava na Terra do Faz de Contas. Como havia ele chegado ali, não o sabia. Apenas dava de boca aberta diante do que via e ouvia. Aos poucos, o Zé foi perdendo, inclusive, os parâmetros do idioma que aprendera na infância e que julgava ser o seu. Trocava substantivos por preposições, advérbios por conjunções e interjeições por orações subordinadas adverbiais temporais. O Zé já não conseguia se comunicar.

No começo, os habitantes Terra do Faz de Contas quiseram mandar o Zé para um manicômio, como já antes acontecera como o filósofo Policarpo Quaresma** que teve um triste fim ao imaginar que a grande Pátria do Cruzeiro do Sul só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra; foi o mesmo Policarpo que tentou substituir o português pelo tupi-guarani. Deu-se mal, muito mal.

Com o Zé foi diferente. Passaram a se acostumar com ele e imaginavam que seus constantes estados de mau humor fosse fruto da idade (naquele tempo, um cara de 67 anos era velho por demais). Mesmo assim, o Zé foi observando tudo e tomando anotações que mais tarde publicou em dois grossos volumes, ilustrados por Doré*** ricamente encadernado, diagramado e revisado pelo autor.

Ah!, os livros! Sempre os livros dizendo coisas nas linhas e nas entrelinhas. Foi por isso que o Fahrenheit 451****, pelas mãos do analfabeto Captain mandou queimar todos os livros e perseguiu Montag obstinadamente.

Mas isso também não aconteceu com o Zé (pelo menos até hoje, pois ele continua bem vivo, observando, anotando e escrevendo livros para desesperar os imbecis num futuro próximo). Os Captains só sabotavam-lhe os passos aqui e ali, dificultando. O Zé finge que não vê e não ouve.

Tive acesso às anotações do Zé, pois nossa amizade assim o permitiu. Copiei (confesso que às escondidas, o que mais tarde confessei) uma interessante lista feita por ele como roteiro de um livro a ser publicado em inglês com o título "Jo's Adventures in Wonderland of Makebelieve" *****.

Eis a lista:

1 - Nas Terras do Faz de Contas os governantes fingem que governam, o povo finge que protesta e a imprensa finge que está do lado do povo.

2 - Nas Terras do Faz de Contas (Land of Makebelieve) os professores fazem de conta que ensinam, os alunos fazem de conta que estudam, fazem de conta que entenderam a matéria e o governo faz de conta que paga os professores;

3 - Nas Terras do Faz de Contas os funcionários fingem que trabalham e passam o dia no facebook; o patrão finge que acredita e no final do mês, finge que paga.

4 - Nas Terras do Faz de Contas os músicos fazem de conta que tocam todas as notas; os regentes fazem de conta que não percebem (em verdade não percebem mesmo!) e os patrocinadores das orquestras fazem de conta que pagam. O público aplaude, fazendo de conta que entendeu.

5 - Nas Terras do Faz de Contas as pessoas fazem de conta que são religiosas; os sacerdotes e os pontífices fazem de contas que possuem um rebanho. Mas Deus, que nunca faz de conta, fica só observando a estúpida sabedoria humana... talvez pensando em providenciar outro dilúvio.

6 - Nas Terras do Faz de Contas o nome Makebelieve (ou Görtro, em sueco) é apenas uma homenagem a Örgryte-is, campeão da Svenska Mästerskapet em 1896******.

7 - Nas Terras do Faz de Contas todos os juramentos são feitos de brincadeirinha, é um faz de contas que antecede ao ágape (eu sei que ágape é substantivo feminino: a ágape, mas faz de contas que eu não sei, tá?);

8 - Nas Terras do Faz de Contas só os despreparadas são escolhidos para ocupar cargos; fazem de contas que honram o mérito, mas bajulam a incompetência que é servil e subserviente.

A lista prossegue com mais 591 itens que deixo de transcrever para não sobrecarregar a paciência de meus estimados leitores. O Zé anda cheio de rugas de preocupação, na horizontal e na vertical; para disfarçar ele usa um nariz de palhaço e um colarinho largo.

Pobre e infeliz foi Policarpo Quaresma que teve um triste fim nas mãos do Marechal Floriano Peixoto que fazia de conta ser Presidente da República.

Salve-se quem puder.
________________________
NOTAS EXPLICATIVAS:
* Juvenal, ou Decimus Junius Juvenalis, 58 a 127 d.C. 60, foi um poeta e retórico romano.
** "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", romance de Lima Barreto, leitura recomendada.
*** Não confundir com peixe a doré. Aqui trata-se do pintor, desenhista e ilustrador francês do Século XIX, Gustav Doré.
**** "Fahrenheit 451", livro de Ray Bradbury (leitura recomendada) e filme do mesmo nome dirigido por François Truffaut, estrelado por Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack, Anton Diffring, Jeremy Spenser, Alex Scott e Bee Duffell. Captain e Montag citados são personagens do romance e livro.
***** Referência ao livro "Alice no País das Maravilhas" - Alice's Adventures in Wonderland - de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, 1832-1898), leitura muito recomendada.
****** Deixo aos adoradores do ludopédio a pesquisa sobre Svenska Mästerskapet e Nas Terras do Faz de Contas todo mundo faz de conta que tudo é um eterno faz de conta, menos o Spil-Med-Fod, espécie de jogo dinamarquês disputado em grandes estádios para fazer de contas que tudo está bem. Mas como na álgebra "menos + menos" dá mais, cada vez mais Wonderland of Makebelieve caminha para o abismo (ou faz de conta que caminha).
(ilustração: composição sobre desenho de John Tenniel)

domingo, 20 de abril de 2014

ARQUIPELAGO GULAG

Título original: Arkhipelag GULag
Autor: Alexandre Soljenítsin (1918-2008)
Tradutor: Francisco A. Ferreira, Maria M. Llistó e José A. SEABRA.
Assunto: Comunismo
Editora: Círculo do Livro
Edição: 1ª
Ano: (1973)
Páginas: 608

"GULag" é um acrônimo em russo para o termo: "Direção Principal (ou Administração) dos Campos de Trabalho Corretivo" ("Glavnoye Upravleniye Ispravitelno-trudovykh Lagerey"), um nome burocrático para este sistema de campos de concentração.

Desde os começos da ditadura genocida bolchevique sabia-se da utilização dos campos de prisioneiros. Nada se estranhar visto que a Rússia, entre 1918-1920, mergulhara numa violentíssima guerra civil entre vermelhos (os bolcheviques) e os brancos (as forças czaristas), ampliada ainda mais pela intervenção de diversas potências estrangeiras (além dos alemães, ingleses, franceses, americanos e japoneses). Todavia verificou-se que, no pós-guerra, o regime soviético vitorioso resolveu intensificar sua política prisional.

Muitos dos primeiros campos visavam servir de laboratório ideológico, voltado a demonstrar a notável capacidade de regeneração desenvolvida pelo novo sistema, capaz de reinserir os criminosos, por meio do trabalho produtivo, na sociedade revolucionada. Stalin, inspirando-se no exemplo de Pedro, o Grande, que lançara mão do trabalho forçado para construir São Petersburgo, a partir de 1703, não demorou em fazer o mesmo, mas com uma significativa diferença: O Czar utilizava em sua grande maioria, criminosos condenados; Stalin, presos políticos e todos aqueles não comungavam com o regime comunista.

Milhares de presos políticos foram então arrebanhados para cavarem o grande Canal do Mar Branco (1928-1932) que ligaria Leningrado ao Oceano Ártico, mas que logo se mostrou ultrapassado devido a possibilidade da utilização de caminhões. Todavia, Stalin fez questão de usar a colossal obra para fins publicitários, para mostrar ao país como o regime soviético “mobilizava” o povo para empreender grandes feitos de engenharia.

Resultou disso que, a partir de 1928, a Comissão Yanson, que transferira do Comissariado da Justiça para a OGPU (Polícia Secreta) a supervisão sobre o "degredo administrativo", decidiu batizar os campos como ITL (Ispravitelno trudovye lagerya), simplesmente campos de trabalho corretivo. As instalações existentes na ilha de Solovetsky, no Mar Branco, situado na região semipolar da URSS, elogiadas por Máximo Gorki e por outros escritores soviéticos da época, foram então apontadas como um campo-modelo, arquétipo do que, desde então, foi construído no restante do país. Todo o Arquipélago Gulag surgiu dali, daquela célula prisional boiando num mar glacial.

Para justificar a lotação cada vez maior deles, Stalin apelou para a justificação ideológica de que conforme o socialismo avançava por todo o país, maior era a resistência das forças contrárias a ele. Situação que o obrigava a ser ainda mais duro do que comumente era. Uma curiosa operação matemática então se deu na década dos anos trinta: mais socialismo significava ainda maior população encarcerada.

Uma enorme rede de "campos de reeducação" espalhou-se pela Rússia Soviética, alcançando inclusive as remotas áreas da Ásia Central, como os desertos do Cazaquistão e as margens da imensa estrada-de-ferro que cortava a conhecida Sibéria.

Com as prisões em massa desencadeadas na época da Yezovchnina (as perseguições ao encargo de Nikolai Yezhov, comissário-chefe da então NKVD), quando Stalin determinou a prisão e encarceramento de milhares de suspeitos de "sabotagem" e atividades "anti-socialistas", em geral ex-membros da elite soviética e quadros médios do Partido Comunista, estima-se que o GULAG tenha abrigado, entre 1936-1940, dois milhões de prisioneiros.

Oficial de artilharia durante a Segunda Guerra Mundial, Alexander Soljenitsin, foi condenado no final do conflito por um dos artigos do Código Penal soviético que lhe fixou inicialmente uma pena de dez anos. Cumpriu-a por primeiro numa das prisões de elite situada ao redor de Moscou antes de ser enviado para os sem-fins da Ásia Central.

A vida nesta primeira instalação é que o inspirou a escrever "O Primeiro Circulo", romance cujo titulo foi extraído do "Inferno" de Dante, espaço reservado aos sábios caídos em desgraça. Stalin, por sugestão do seu novo chefe da polícia política Laurenti Béria (1938-1953), havia concordado em erguer cárceres especiais para pesquisadores e homens de ciência denunciados como suspeitos para que eles pudessem trabalhar juntos nos projetos mais urgentes do regime. Para piorarem mais as coisas para ele, foi atacado por um violento câncer no estomago, o que o levou a internar-se num hospital de presos (tema do "O Pavilhão dos Cancerosos").

Liberto após a morte de Stalin, miraculosamente vivo, aproveitando-se da moderada desestalinização que se seguiu, dedicou-se, a partir de 1957, a lecionar matemática em Riazan e a publicar suas novelas e contos que escondera com muito cuidado, muitas delas redigidas nas condições abomináveis da vida de um zek, um prisioneiro dos campos.

Soljenitsin dizia rir-se daqueles homens de letras, seus contemporâneos, que inventavam mil e umas manias, que só conseguiam pegar na pena em condições muito próprias, ideais. Ele aprendera a manejar o lápis ou a caneta ainda quando em marcha com os demais encarcerados, na hora do rancho ou nos intervalos do corte de lenha no mato. A paixão dele pela literatura fazia dele um obcecado registrador de palavras. Viu-se quase como um furioso enchendo um sem-fim de cadernos e resmas de papel, escrito sem margens e com o mínimo de espaço entre uma linha e outra, nas piores circunstâncias possíveis.

Não que a opinião pública do Ocidente não soubesse dos campos de trabalho do regime soviético. Longe disso. Ainda após a Segunda Guerra Mundial, um trânsfuga do governo comunista que pedira asilo político no Canadá chamado Victor Kravchenko os denunciara num livro intitulado na sua edição em inglês como I choose Freedom ("Eu preferi a liberdade", 1947).

Além de afirmar que "a ditadura comunista na URSS não era exclusivamente um problema do povo russo, ou somente das democracias, senão que da humanidade inteira", ele revelara que os comunistas haviam erigido um Estado-Policial como poder discricionário sobre os cidadãos.

Um ataque feroz que ele recebeu da imprensa comunista da França, que tentou desqualificá-lo, acusando-o de mentiroso, rendeu-lhe a vitória em dois processos nos tribunais de Paris, em abril de 1949. O affair Kravchenko, todavia foi esquecido e muitos intelectuais entenderam que a denúncia dele ligava-se às posições anticomunistas dos norte-americanos nos começos da Guerra Fria e, como conseqüência, deviam ser um tanto exageradas, senão descabidas. Além disso, ele aparecera no cenário como um traidor da causa. Na memória de outros, todavia, pesava ainda o fato de que fora o regime stalinista quem impusera uma derrota definitiva ao nazismo. A Europa Ocidental ainda tinha na lembrança o sacrifício dos russos em Stalingrado para querer levar a diante um tema tão espinhoso como aquele levantado por Kravchenko.

Do livro dele, editado em 1947, ao "Arquipélago Gulag" de Soljenitsin, traduzido no Ocidente 27 anos depois, muita desilusão se dera em relação às grandes bandeiras do socialismo.

Os soviéticos haviam intervido com seus tanques em Berlim, em 1953, em Budapeste, em 1956, e em Praga, em 1968. Em 1961, Kruschev, provocando um enorme estrago na imagem internacional do socialismo, determinara a construção do Muro de Berlim, com ordens em disparar em quem tentasse ultrapassá-lo para alcançar o Ocidente. De libertadores da Europa, os soviéticos passaram a ser vistos como seus mais recentes opressores. Deste modo criou-se um clima bem mais favorável ao acolhimento do relato sobre o Gulag.
O livro em si, aprontado em 1973, é caótico. Durante alguns anos, Soljenitsin, como se fora um cuidadoso colecionador, recolheu o mais variado número de relatos e depoimentos de gente que fora condenada aos trabalhos forçados, misturando-os com seus próprios registros. Não se trata, pois, da experiência prisional de um só homem (como, por lembrança, deu-se com "Recordações da Casa dos Mortos" de Dostoiévski), mas sim de uma coletânea de dolorosos e pungentes testemunhos daqueles que sofreram inimagináveis horrores dentro dos Gulags, dos quais a grande maioria jamais saiu.

O livro, traduzido para diversos idiomas ocidentais, teve o efeito de um tufão. Não se tratava de um fugido que saltara o muro ou um renegado do comunismo, mais sim alguém de dentro que sabidamente trilhara pelo purgatório do stalinismo e que sobrevivera, um respeitado escritor que atingira fama internacional e que fora indicado ao Prêmio Nobel, em 1970 (ele temia viajar para Estocolmo com receio de que as autoridades soviéticas não o deixassem voltar). Um homem de letras preso às raízes mais profundas da terra russa, um descendente das estepes da região de Rostov, que se negara a deixar o solo natal e só o fizera por motivo do decreto que o expulsou definitivamente do país, em 1974 (exilado nos Estados Unidos, em Vermont, somente retornou à URSS em 1994, durante o governo de Gorbatchov). Soljenitsin não podia ser difamado como um "agente do imperialismo" ou de estar a serviço dos interesses estado-unidenses como costumeiramente ocorria nesses casos quando os jornais esquerdistas ou pró-comunistas procuravam desqualificar uma testemunha que apontasse seu dedo acusador para a URSS ou o seu regime.

Com o tempo, Soljenitsin, como que desiludido das coisas do mundo, assumiu uma posição cada vez mais pessimista, quase de mensageiro apocalíptico, alguém que, nos moldes dos Velhos Crentes (seita russa do século 19 que tinha ojeriza à ocidentalização e aos costumes modernos), começou a lançar anátemas ao Ocidente, lamentando a perda da originalidade da cultura russa provocada pela Revolução de 1917.

Para afirmar ainda mais sua aparência de Santo Inquisidor dostoievsquiano ou de profeta tolstoiano, cada vez mais misantropo, deixou que as barbas lhe tomassem inteiramente o rosto, assemelhando-se aos patriarcas mujiques ou aos monges ortodoxos, a quem ele via como as mais originais e representativas figuras da "verdadeira Rússia". Na verdade tratava-se de uma atitude de protesto para o mundo Ocidental que se fazia de mouco às suas revelações e às realidades dos fatos.

Excerto do livro: [Como se dava o processo de detenção]
"É certo também que a NKVD, na ausência da pessoa de que necessitava, obrigava os seus familiares a assinar um aviso proibindo-os de qualquer deslocação, e, naturalmente, não custava nada embarcar os que tinham ficado em lugar do fugitivo.
A inocência geral engendra a inatividade geral. Pode ser que não o levem. Pode ser que você escape. Aleksandr Ivánitch Ladijenski era professor da escola da aldeia perdida de Kologriv. No ano de 1937 aproximou-se dele no mercado um camponês e comunicou-lhe da parte de alguém: 'Aleksandr Ovánitch, vá-se embora daqui, você está na lista'. Mas ele ficou: 'Eu sou o pilar da escola e os próprios filhos deles estudam comigo; como me podem prender?' Dias depois foi preso. Não é qualquer pessoa que, como Vánia Levitski, compreende logo aos catorze anos de idade: 'Toda pessoa honrada deve passar pelo cárcere. Agora está preso o meu pai e, quando eu crescer, prender-me-ão a mim'. (Ele foi preso aos vinte e três anos.) A maioria fica inerte numa miragem de esperança. 'Uma vez que você é inocente - como podem lhe prender?' É um erro! Enquanto o arrastam pelo colarinho você não deixa de exorcimar: 'É um erro! Esclarecerão tudo e me libertarão!' Outros são presos em massa; isso é também absurdo, mas cada caso fica envolto nas trevas: 'Talvez aquele, quem sabe?... Mas você!' - você certamente é inocente" Você ainda encara os 'Órgão' como uma instituição com lógica humana: 'Hão de esclarecer e libertar'.
Nesse caso, para que fugir?... E como você pode então oferecer resistência?... Só piora a sua situação e impede que esclareçam o erro. Você não só não resiste, como até desce a escada na ponta dos pés, como lhe ordenam, para que os vizinhos não ouçam".
Nota do Autor:
"E depois, nos campos, que tortura! E se cada agente de cada vez que vai fazer detenções, pela noite, não tivesse a certeza de voltar vivo e tivesse que despedir-se da família?! Se durante as detenções em massa, como por exemplo em Leningrado, quando foi presa a quarta parte da população da cidade (em dezembro de 1934, após o assassinato de Kirov), as pessoas não tivessem permanecido nas suas tocas tremendo de medo a cada pancada na porta e a cada passo na escada, se elas tivessem compreendido que nada mais tinham a perder, e nos seus vestíbulos, com ânimo forte, umas quantas pessoas tivessem feito emboscadas com machados, com martelos, com espetos, enfim com o que encontrassem à mão? É sabido de antemão que essas aves noturnas com bonés não vão com boas intenções - não há risco de errar, descarregando um golpe no homicida. Quanto ao carro da polícia, com o seu motorista solitário, que ficou na rua, não havia senão que arrastá-lo ou furar-lhe os pneus? Os "Órgãos" bem depressa notariam a falta de colaboradores e de meios de transporte, e, a despeito de toda a ânsia de Stálin, teria sido detida a máquina maldita! Se se tivesse... se se tivesse feito isso... Faltou-nos suficiente amor à liberdade e, mais que tudo, a plena consciência da verdadeira situação. Gastamo-nos numa incontrolável explosão no ano de 1917, e depois apressamo-nos a submetermo-nos e foi com satisfação que nos submetemos. Merecemos simplesmente tudo quanto sobreveio depois." [Processo idêntico vê-se no Brasil a partir de 1995. Estamos em 2014, na fase final da comunização do país. Quando perceberem a inconsciência em que meteram o país, será tarde demais].

O Autor:
Escritor russo, de nome verdadeiro Aleksandr Isaevich Solzhenitsyn, nasceu em Kislovodsk, no Cáucaso, a 11 de Novembro de 1918. O pai morreu na guerra, antes do seu nascimento. Aos seis anos, muda-se com a mãe para Rostov, onde vem a fazer estudos de Matemática. Participa na Segunda Guerra Mundial, sendo várias vezes condecorado. Uma carta dirigida a um amigo, em que expressa as suas opiniões sobre Stalin, leva-o à prisão e é condenado a trabalhos forçados. Em 1962 publica "Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch", um depoimento sobre o sistema prisional. "O Primeiro Círculo" e "O Pavilhão dos Cancerosos", editados em 1968 no estrangeiro, trouxeram-lhe o reconhecimento internacional. Agosto 14 corresponde ao início de uma vasta obra de natureza histórica. Em 1970 foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Literatura, mas receando que lhe interditassem o retorno ao país, não foi recebê-lo em Estocolmo. Pouco depois da publicação de "O Arquipélago de Gulag" em Paris, em 1974, é preso, julgado por traição e, finalmente, condenado ao exílio. Instala-se nos Estados Unidos, prosseguindo a sua obra literária e procurando reunir os dissidentes na sua luta contra o sistema vigente na URSS. Em Setembro de 1991 foi por fim ilibado da acusação de traição pelo governo soviético e em Julho de 1994 volta à Rússia. Escritor de inspiração católica, a libertação interior do homem é o tema central da sua obra e a razão da sua luta. Morreu a 3 de agosto de 2008, aos 89 anos de idade.

sábado, 12 de abril de 2014

O COMUNISMO REAL



Escrito por Olavo de Carvalho | 09 Abril 2014 Artigos - Cultura
Essa é a definição real do comunismo: controle efetivo e total da sociedade civil e política, sob o pretexto de um “modo de produção” cujo advento continuará e terá de continuar sendo adiado pelos séculos dos séculos.
Nos dicionários e na cabeça do povinho semi-analfabeto das universidades, a diferença entre capitalismo e comunismo é a de um “modo de produção”, ou, mais especificamente, a da “propriedade dos meios de produção”, privada num caso, pública no outro. Mas isso é a autodefinição que o comunismo dá a si mesmo: é um slogan ideológico, um símbolo aglutinador da militância, não uma definição objetiva. Se até os adversários do comunismo a aceitam, isto só prova que se deixaram dominar mentalmente por aqueles que os odeiam – e esse domínio é precisamente aquilo que, no vocabulário da estratégia comunista, se chama “hegemonia”.
Objetivamente, a estatização completa dos meios de produção nunca existiu nem nunca existirá: ela é uma impossibilidade econômica pura e simples. Ludwig von Mises já demonstrou isso em 1921 e, após umas débeis esperneadas, os comunistas desistiram de tentar contestá-lo: sabiam e sabem que ele tinha razão.
Em todos os regimes comunistas do mundo, uma parcela considerável da economia sempre se conservou nas mãos de investidores privados. De início, clandestinamente, sob as vistas grossas de um governo consciente de que a economia não sobreviveria sem isso. Mais tarde, declarada e oficialmente, sob o nome de “perestroika” ou qualquer outro. Tudo indica que a participação do capital privado na economia chegou mesmo a ser maior em alguns regimes comunistas do que em várias nações tidas como “capitalistas”.
Isso mostra, com a maior clareza possível, que o comunismo não é um modo de produção, não é um sistema de propriedade dos meios de produção. É um movimento político que tem um objetivo totalmente diferente e ao qual o símbolo “propriedade pública dos meios de produção” serve apenas de pretexto hipnótico para controle das massas: é a cenoura que atrai o burro para cá e para lá, sem que ele jamais chegue ou possa chegar ao prometidíssimo e inviabilíssimo “modo de produção comunista”.
No entanto, se deixaram a iniciativa privada à solta, por saber que a economia é por natureza a parte mais incontrolável da vida social, todos os governos comunistas de todos os continentes fizeram o possível e o impossível para controlar o que fosse controlável, o que não dependesse de casualidades imprevisíveis mas do funcionamento de uns poucos canais de ação diretamente acessíveis à intervenção governamental.
Esses canais eram: os partidos e movimentos políticos, a mídia, a educação popular, a religião e as instituições de cultura. Dominando um número limitado de organizações e grupos, o governo comunista podia assim controlar diretamente a política e o comportamento de toda a sociedade civil, sem a menor necessidade de exercer um impossível controle igualmente draconiano sobre a produção, a distribuição e o comércio de bens e serviços.
Essa é a definição real do comunismo: controle efetivo e total da sociedade civil e política, sob o pretexto de um “modo de produção” cujo advento continuará e terá de continuar sendo adiado pelos séculos dos séculos.
A prática real do comunismo traz consigo o total desmentido do princípio básico que lhe dá fundamento teórico: o princípio de que a política, a cultura e a vida social em geral dependem do “modo de produção”. Se dependessem, um governo comunista não poderia sobreviver por muito tempo sem estatizar por completo a propriedade dos meios de produção. Bem ao contrário, o comunismo só tem sobrevivido, e sobrevive ainda, da sua capacidade de adiar indefinidamente o cumprimento dessa promessa absurda. Esta, portanto, não é a sua essência nem a sua definição: é o falso pretexto de que ele se utiliza para controlar ditatorialmente a sociedade.
Trair suas promessas não é, portanto, um “desvio” do programa comunista: é a sua essência, a sua natureza permanente, a condição mesma da sua subsistência.
Compreensivelmente, é esse mesmo caráter dúplice e escorregadio que lhe permite ludibriar não somente a massa de seus adeptos e militantes, mas até seus inimigos declarados: os empresários capitalistas. Tão logo estes se deixam persuadir do preceito marxista de que o modo de produção determina o curso da vida social e política (e é quase impossível que não acabem se convencendo disso, dado que a economia é a sua esfera de ação própria e o foco maior dos seus interesses), a conclusão que tiram daí é que, enquanto estiver garantida uma certa margem de ação para a iniciativa privada, o comunismo continuará sendo uma ameaça vaga, distante e até puramente imaginária. Enquanto isso, vão deixando o governo comunista ir invadindo e dominando áreas cada vez mais amplas da sociedade civil e da política, até chegar-se ao ponto em que a única liberdade que resta – para uns poucos, decerto – é a de ganhar dinheiro. Com a condição de que sejam bons meninos e não usem o dinheiro como meio para conquistar outras liberdades. Ao primeiro sinal de que um empresário, confiado no dinheiro, se atreve a ter suas próprias opiniões, ou a deixar que seus empregados as tenham, o governo trata de fazê-lo lembrar que não passa do beneficiário provisório de uma concessão estatal que pode ser revogada a qualquer momento. O sr. Silvio Santos é o enésimo a receber esse recado.
É assim que um governo comunista vai dominando tudo em torno, sem que ninguém deseje admitir que já está vivendo sob uma ditadura comunista. Por trás, os comunistas mais experientes riem: “Ha! Ha! Esses idiotas pensam que o que queremos é controlar a economia! O que queremos é controlar seus cérebros, seus corações, suas vidas.
E já controlam.
(Publicado no Diário do Comércio.)