quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

RESTAGANDO A VERDADE - Parte I

Continuação ...
 
A GUERRA REVOLUCIONÁRIA
GENERAL FERDINANDO DE CARVALHO
1976
PRIMEIRA PARTE
A DOUTRINA
 
2. A ESTRATÉGIA E A TÁTICA
Sem dúvida, o grande objetivo da Guerra Revolucionária é o domínio comunista em escala universal. Esse é o postulado que os próprios comunistas se impuseram como requisito de sobrevivência.
Em conseqüência, surgem como imposições fundamentais para a estratégia comunista, um caráter ofensivo, um caráter global e um caráter indireto.
Como estratégia ofensiva, o Comunismo Internacional procura constantemente expandir as suas áreas de domínio e influência. A divergência entre Trotsky e Stalin constituiu apenas na diversidade de opiniões sobre quando a ofensiva deveria se desencadeada. Trotsky desejava empreender imediatamente o ataque. Stalin julgava que havia necessidade de, inicialmente, fortificar o Estado Soviético para depois lançar a ofensiva. E Stalin venceu.
Como estratégia global, o Comunismo Internacional visa dominar as populações em todos os campos de atividade humana: político, econômico, social e militar.
Como estratégia indireta, o Comunismo Internacional evitará o engajamento frontal entre grandes potências. A sua ação será preferencialmente sub-reptícia, subterrânea e subversiva. Os objetivos ostensivos são sempre limitados para evitar as reações violentas. Mas, uma vez conquistado o objetivo parcial, surge imediatamente outro pouco mais adiante e assim sucessivamente, num processo de etapas bem medidas e calculadas, mas um processo contínuo e ininterrupto. A guerra violenta é considerada como um tiro de misericórdia, só desfechado quando o inimigo estiver virtualmente dominado.
Em vista dessas características estratégicas, eu daria para a Guerra Revolucionária uma definição extremamente simples:
“Guerra Revolucionária é a fórmula comunista de dominar o mundo.”
A deficiente compreensão do que é a Guerra Revolucionária, de sua estratégia indireta e de objetivos limitados, é a principal razão dos insucessos e das derrotas das nações do Mundo Livre e do constante avanço comunista em todo o globo.
A União Soviética deseja manter a condição de centro diretor desse gigantesco e infernal projeto. A China Comunista tem desafiado essa pretensão, mas na realidade ainda é Moscou que dá as grandes diretrizes do Comunismo Internacional.
O conceito dessa grande operação do século é a realização da conquista da hegemonia mundial com um mínimo de risco, com um mínimo empenho de forças, pela criação planejada de situações revolucionárias, explosivas e insustentáveis, nos países do Mundo Livre e pela corrosão de suas defesas morais e materiais.
Lenine proporcionou a orientação conveniente para essa operação quando recomendou:
“Grande parte do que desejamos construir depende de nossos êxitos em adiar a guerra com os países capitalistas, guerra que é inevitável, mas que deve ser procrastinada até que a revolução amadureça ou até que as revoluções coloniais se fortaleçam ou, finalmente, até que os capitalistas lutem entre si.”
Stalin diria que era um dever da União Soviética provocar revoltas nos países capitalistas, a fim de apressar a implantação do domínio mundial do comunismo, pois “o desenvolvimento da revolução mundial será tanto mais rápido e completo quanto mais efetivo for o auxílio da União Soviética”.
Krushov declarou, em seu Informe para o XXII Congresso do PCUS:
“Na época atual, surgiram condições favoráveis para o desenvolvimento do movimento revolucionário mundial.”
E ainda:
“Na época atual, praticamente qualquer país, independentemente de seu nível de desenvolvimento, pode empreender o caminho que leva ao comunismo.”
Seguindo essa orientação de seus líderes, nesse mundo limitado em suas manifestações de violência armada pelo impasse nuclear entre as grandes potências, os comunistas passaram a fazer da Guerra Revolucionária o seu principal instrumento de expansionismo.
Para alcançarem seus objetivos, não vacilam em aliar-se a todos os descontentes e ambiciosos, de qualquer colocação política ou nível econômico, desde que se prestem a seus desígnios.
A revolução chinesa iniciou-se com um levante de trabalhadores do Sul que não eram comunistas. Na Indochina, a revolução começou com a revolta dos plantadores de arroz que também não eram comunistas.
Lenine dizia que jamais poderá existir uma revolução feita apenas por comunistas.
“Quem esperar uma revolução comunista pura, dizia ele, não a terá jamais.”
Os maquinadores do Comunismo desenvolveram uma teoria elaborada, inspirada nos ensinamentos leninistas, e a vêm aplicando com muitos êxitos. É o que denominam de “Teoria da Transformação das Revoluções”.
Essa teoria está detalhadamente explicada na obra “Fundamentos do Marxismo-Leninismo”, editada oficialmente pelo Partido Comunista da União Soviética.
Nesse texto lemos:
“No que tem de fundamental e principal, a teoria leninista da transformação da revolução democrático-burguesa em comunista é apreciável em todas as revoluções democráticas de nossa época. Isto não significa, é claro, que toda revolução democrática se transforme obrigatoriamente em comunista, apenas que ela pode transformar-se em comunista, se a classe operária conseguir uma posição dirigente”.
E são citados vários exemplos ocorridos no fim da Segunda Guerra Mundial e em países da Ásia, como a China, a Coréia e o Vietnam. Mas nós acrescentamos a própria Revolução Russa, pois o que ocorreu em novembro de 1917 quando o Comitê Militar Revolucionário derrubou de surpresa o governo provisório, foi exatamente a conquista da direção pelos comunistas de uma revolução originalmente democrática. Sobre esse fato, Kerensky assim se expressou:
“Não podemos culpar o povo russo por ter caído na armadilha bolchevista, pois, naquela ocasião, o mundo ainda não tinha experiência com as técnicas totalitárias modernas. Mas os milhões de operários, camponeses e intelectuais do Ocidente democrático, a quem oferecem agora a isca, não têm desculpa. Sirva-lhes de aviso a terrível experiência sofrida pela minha terra natal.”
Segundo os fundamentos do Marxismo-Leninismo, as revoluções democráticas manifestam uma tendência para desenvolverem uma etapa mais alta e é, nesse momento, que cumpre aos comunistas assentar o golpe.
Essa concepção de Lenine baseou-se principalmente nas revoluções da Rússia, em 1917, e da Alemanha, em 1923.
Toda base dessa teoria reside na necessidade de que os comunistas assumam a direção do movimento revolucionário, seja gradativamente, seja através de um golpe político ou militar.
Pode-se dizer que a tática dos comunistas nas áreas subdesenvolvidas ou semidesenvolvidas gira em torno desse esquema de ação.
Em primeiro lugar, criam as condições para uma revolução democrática, através das ações da Guerra Revolucionária para minar e subverter o regime vigente.
Em segundo, apoderam-se da direção do movimento para submetê-lo à ditadura comunista, eufemisticamente denominada de “ditadura do proletariado”.
Segundo os teóricos modernos do Comunismo, as condições do mundo atual favorecem essa tática, pois, se antigamente a revolução democrática e a revolução comunista eram dirigidas contra inimigos diferentes, hoje elas podem ser dirigidas contra o mesmo inimigo, através de alianças temporárias com oportunistas e, assim, abreviar etapas do processo comunista.
É por essa razão, por essa tática de apropriação do movimento revolucionário que Strauz-Hupé considera os comunistas como os “grandes aproveitadores das revoluções”, os grandes exploradores das revoluções que outros iniciam.
 
Continua...
 
3. O AMBIENTE

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

RESGATANDO A VERDADE

Trata-se de um resumo do extenso e abrangente Relatório Geral do Inquérito Policial Militar Nº 709 (IPM Nº 709), instaurado pelo Comando Supremo da Revolução, em 21 de setembro de 1964, delegando ao Coronel de Artilharia Ferdinando de Carvalho, as atribuições necessárias para apuração dos fatos e as devidas responsabilidades de todos aqueles que, no País, tenham desenvolvido ou estivessem desenvolvendo atividades capituladas nas leis que naquela época definiam os crimes militares e os crimes contra o Estado, a Ordem Pública, Política e Social.
O inteiro teor do Inquérito foi editado em quatro volumes pela Biblioteca do Exército,, distribuídos a todas as organizações militares da Força Terrestre e disponibilizados para todos os militares assinantes da Biblioteca, em 1966.
Dez anos depois (1976), o Coronel Ferdinando de Carvalho, já no posto de General, produziu esse precioso resumo, também impresso pela Biblioteca do Exército e disponibilizado para compra, por quaisquer interessados.
O Inquérito examinou minuciosamente, um imenso número de documentos comprobatórios das atividades das organizações subversivas e dos seus agentes nas diversas expressões do Poder do Estado, subvertido. Cabe ressaltar a grande honestidade intelectual do competente encarregado do IPM no desenvolvimento desta trabalhosa peça jurídica. É uma obra prima da História do Brasil, de grande fôlego, infelizmente esquecida nos arquivos e desprezadas nos entulhos jogados fora.
No governo FHC, o então ministro do Exército Gen. Ex. Gleuber Vieira tentou reeditar o IPM, mas foi brecado. Partiu então para formar uma comissão que elaborou a História Oral do Exército, um bom trabalho, contendo depoimentos, mas não especificamente tratando do Movimento Cívico-Patriótico de 1964. Acredito na possibilidade da sobrevivência do IPM 709, importante registro histórico, em estantes de alguns poucos meus contemporâneos.  (JBR)

 
A GUERRA REVOLUCIONÁRIA

GENERAL FERDINANDO DE CARVALHO

1976

PRIMEIRA PARTE

A DOUTRINA

1. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
Há muitos anos atrás, dominava em nosso Exército, como nas demais Forças Armadas em nosso País, uma preocupação tradicional: a defesa de nossas fronteiras, a inviolabilidade e a integridade de nosso território soberano, contra um ataque armado por inimigos ostensivos. Nosso adestramento militar voltava-se quase que exclusivamente para a eventualidade de uma agressão externa.
Mas, a partir de década de 30, começamos a perceber que essa concepção não era adequada à conjuntura. Sentimos que se definia, por dentro de nossas próprias fronteiras, com a cumplicidade de muitos brasileiros, desorientados por convicção ou ingenuidade, um inimigo ativo e tenaz, um inimigo a que não nos achávamos afeitos, utilizando concepções estratégicas e processos táticos que não conhecíamos antes. Pressentimos que esse inimigo seria capaz de invalidar nossa doutrina, de anular nossa preparação, de abalar o regime democrático de nosso país, destruir nossas instituições e, até mesmo, conquistar o poder, em submissão ao Comunismo Internacional.
Nessa época, a Revolução Comunista espalhava a sua grande mancha vermelha sobre a Europa. Stalin se apoderara do governo soviético e o Partido Comunista do Brasil, filiado ao Comintern, comprometera-se, aceitando as 21 condições do internacionalismo proletário, a renunciar o patriotismo, ao pacifismo e a trabalhar sem tréguas pela vitória do Comunismo.
Pareceu-nos, então, que nos encontrávamos numa situação completamente desfavorável. Estávamos distraídos a esperar um inimigo imaginário que não viria nunca, enquanto, em nossa retaguarda, à sombra de nossa própria vigilância, garantidos pela proteção de nossas franquias democráticas, o adversário real se fortalecia e se preparava impunemente para o assalto.
Houve de início grande perplexidade. Muitas pessoas não se aperceberam do perigo.
E efetivamente, em 1935, ele nos atacou de surpresa. Procurou sobrepujar o poder legal na base da audácia e da violência. Vários companheiros nossos foram sacrificados no cumprimento do dever.
Embora tenham fracassado nessa feita, os comunistas não desanimaram. Rearticularam seu dispositivo, reestudaram suas próprias concepções, criticaram suas próprias falhas, alteraram a sua tática, reformularam seus processos.
Em 1964 fizeram uma nova tentativa de levar o País a uma ditadura proletária. Talvez por divino milagre, ainda dessa vez, foram impedidos de conseguir esse intento.
Mas não esmoreceram. Retraíram-se, promoveram nova autocrítica, corrigiram-se, rearticularam-se e prosseguiram. Um passo à frente e dois atrás, como dizia Lenine.
E continuam até hoje.
O que desejam eles? O que tem em vista?
Essa indagação talvez se afigure de tocante ingenuidade. Mas, até hoje, existem pessoas que não sabem isso. Outras sabendo, não acreditam. Outras acreditando não valorizam a ameaça.
Mas o que eles desejam afinal?
Para responder basta que se leiam os objetivos do Partido Comunista, expressos em seus Estatutos de 1954. Não queremos referir-nos aos Estatutos apresentados em 1961, que estes estavam devidamente camuflados, para efeito de tentativa de registro geral. Dizem os Estatutos de 1954:
“O Partido Comunista do Brasil tem como objetivos finais construir no Brasil o socialismo e edificar a sociedade comunista.”
Para completar o entendimento dessa missão, devemo-nos reportar ao que Luiz Carlos Prestes escreve nos Problemas de Paz e de Socialismo, em maio de 1963:
“Em nosso Partido, levantamos bem alto a sua conhecida tradição de fidelidade inabalável à União Soviética e à unidade do movimento comunista mundial, tendo por base o internacionalismo proletário e o marxismo-leninismo”.
Para os que não se acham habituados com o jargão dos comunistas, é interessante esclarecer ainda, o que entendem eles por “internacionalismo proletário”, se é que o sentido da expressão não se acha claro na asserção de Prestes.
Deixemos que Stalin responda por nós, como insuspeito:
“O internacionalista (proletário) é aquele que, sem reservas, sem hesitações, sem condições, está pronto para defender a União Soviética, pois esta é a base do movimento revolucionário mundial, e é impossível defender e estimular esse movimento sem defender a União Soviética”.
Então, o “internacionalista proletário” é aquele que é capaz de renunciar a tudo para defender a pátria-mãe do comunismo mundial, ou seja, a União Soviética.
Agora, pois, que sabemos o que os comunistas desejam: construir uma sociedade comunista e defender incondicionalmente a base soviética do comunismo mundial podemos compreender a razão pela qual a União Soviética e atualmente, também, a China Comunista alimentam, apóiam e incentivam uma espécie de guerra original, de concepção marxista-leninista, que se convencionou denominar Guerra Revolucionária.
Não negam eles que nos encontramos hoje em uma guerra em que a paz comunista, como a Paz dos Romanos, é a submissão dos vencidos, é o conformismo dos povos conquistados.
Lenine dizia que a Paz é o prosseguimento da guerra com outros meios e Krushov completava que a Coexistência Pacífica é uma forma de luta.
Adquirimos em nosso País, na década de 50, uma lamentável convicção, decepcionante principalmente para os que lutaram na Europa por um mundo de paz e compreensão, a de que a guerra não havia terminado com a rendição de 1945, a de que o mundo permanecia em conflito e, ainda mais, de que esse conflito penetrava em nossas fronteiras, atingia nossas cidades, nossos campos, nossas escolas e nossos lares. Estávamos diante de uma guerra de conquista, uma nova forma de agressão, sem armas e munições, uma ofensiva constante, presente em todas as horas, nas universidades, nas fábricas, nos quartéis; uma guerra ampla, total e permanente: a Guerra Revolucionária.
Enquanto a guerra convencional se desenvolvia outrora em frentes de combate ou sobre objetivo definidos no terreno, a Guerra Revolucionária moderna não tem um teatro especial, está em todos os lugares. Enquanto, na guerra convencional, as ações visam destruir materialmente o adversário, a Guerra Revolucionária visa a dominar mentalmente a totalidade da população nacional. Seu objetivo físico é o homem. Seu objetivo material é o poder.
Em nosso País, entre 1957 e 1964, através dos ardilosos recursos da Guerra Revolucionária, os comunistas e seus poderosos aliados conseguiram sucessos que a violência de 1935 lhes havia negado. Infiltraram-se em todos os meios e organizações: nos partidos políticos, nos sindicatos, nos colégios e universidades, nos meios intelectuais, no meio rural, no parlamento, na administração pública, na justiça, na imprensa, nos meios religiosos e nas forças armadas. Dominaram grande número de instituições, criaram frentes de mobilização de massas, levaram multidões para as ruas em concentrações e comícios. Penetraram no governo e desmoralizaram instituições. Circunscreveram e isolaram as autoridades e incentivaram a crise econômica. Através de greves, desordens e campanhas de descrédito ocasionaram a desconfiança internacional em relação ao nosso país e paralisaram o poder legal.
Em dez anos de ação persistente e implacável chegaram às orlas do poder.
O Estado Socialista, tão bem descrito por Soljenítzin, o Estado policial da ditadura do proletariado que é, na realidade, a tirania de um grupo minoritário, o Estado amordaçado, emparedado e agrilhoado estava à vista. Era a programada instalação de um chamado “governo nacionalista e democrático” que alguns parvos e aproveitadores negociavam, no início de 1964, com o Partido Comunista em troca de promessas, que jamais seriam cumpridas, atendendo reivindicações que nunca eram satisfeitas, sob a constante ameaça da greve geral. Assim, o governo desmoralizado e corrompido, entregava ao Comunismo Internacional, a prestações, o poder que a nação lhe havia confiado, mediante a tácita permissão para realizar alguns negócios pessoais escusos e inconfessáveis.
Houve, naqueles dias de profunda gravidade, uma preocupação fremente, ansiosa, de estudar-se o fenômeno da Guerra Revolucionária, no anseio de buscar-se um antídoto de emergência, um remédio heróico para uma crise que se afigurava quase irremediável.
Rebuscaram-se estudos e tratados, consultaram-se autores franceses e americanos. Mas os franceses haviam perdido a guerra da Indochina e estavam perdendo a guerra da Argélia. Os americanos fracassavam em Cuba, na Coréia e no Vietnam. Nem uns, nem outros nos dariam soluções satisfatórias.
Houve quem tentasse para o Brasil o modelo de Hogard, que decompunha a Guerra Revolucionária em cinco fases.
Mas a Guerra Revolucionária não obedece a esquemas clássicos. Ela se assemelha a uma hidra informe e coleante, com mil tentáculos e uma capacidade inacreditável de se metamorfosear.
A experiência da vida real tem ensinado muito. Aprendemos que em Guerras Revolucionárias não se aplicam fórmulas esquemáticas. Cada conflito tem uma feição própria e original. Da mesma forma, é inútil tentar-se apoiar ação anti-subversiva em preconceitos. A Guerra revolucionária é uma luta em que a inteligência e a criatividade adquirem especial relevo.
Pensou-se inicialmente que a subversão comunista era uma doença dos países subdesenvolvidos. Puro engano. O próprio desenvolvimento cria problemas, crises de crescimento que podem ser exploradas. Atualmente não existem nações, no Mundo Livre, que escapem às investidas do Comunismo Internacional.
Os temas da propaganda e da agitação subversiva surgem a toda hora e em todos os lugares.
Nos países subdesenvolvidos os assuntos mais explorados sãos as diferenças sociais, o desequilíbrio da distribuição de riqueza e de renda, os preconceitos religiosos, as rivalidades entre facções políticas e a exploração econômica estrangeira.
Os países desenvolvidos, mesmo os mais ricos e poderosos, oferecem também um largo repertório de motivações. São os preconceitos religiosos, o desnivelamento econômico, a corrupção das elites, o crime e o vício, a desorientação da juventude e tantas outras causas.
Nos países em desenvolvimento, além dos problemas comuns a uma sociedade em transição, em geral mal estruturada e culturalmente descompassada, as crises próprias do crescimento, a urbanização, as dificuldades sócio-econômicas, os preconceitos de minorias sociais e as dificuldades da modernização dos valores sociais trazem reações infalivelmente focalizadas pelos grupos subversivos.
Realizadas essas considerações, a título de introdução, desejamos salientar que não é nossa pretensão dar-vos um curso de Guerra Revolucionária neste resumido trabalho.
Julgamos que seria de grande utilidade mostrar alguns aspectos que despertassem no espírito de todo o sentimento da ameaça. Assim como uma luz vermelha que anuncia algo de perigoso no caminho. Não temos condições para iluminar toda a estrada que desejais seguir, mas somente para alertar-vos e aconselhar-vos todos os cuidados. A luz que desvendará os reais obstáculos, as armadilhas traiçoeiras terá que ser a inteligência e o sentimento de cada um.
Assim, queremos desde logo avisar-vos sobre a estratégia e a tática dos adversários do Mundo Livre nessa espécie de conflito que associou a impiedade da guerra à desenvoltura de revolução para servir de aríete ao expansionismo comunista.
 
Continua...

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CAPITALISMO E CRISTIANISMO


Por Olavo de Carvalho

A pedidos, e com notável atraso, reproduzo aqui este artigo que, com título editorial modificado, saiu na revista República de dezembro de 1998. - O. de C.

 

Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.

Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica.

Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços têm de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a "concentração do capital" eqüivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.

Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Santo Tomás, com razão, condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na sua própria falência.

Santo Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio — aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que viviam essa mudança no seu dia a dia e, aliás, viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas, ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido a "finalidades sociais" externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Santo Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Santo Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou "o Reino de Deus na Terra". Daí, também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da "ascese mundana" (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas, sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito de várias encíclicas papais.

Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, "filha dileta da Igreja", marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se algo prova, é que o "capitalismo selvagem" floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão... dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até o "pacto de Metz", em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, "a fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano", o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas.

Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o socialismo, mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é no fundo mais cristão que o capitalismo.

Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.

Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de lentilhas da eficiência amoral.

- Fim -