domingo, 30 de dezembro de 2012

FECHANDO AS CORTINAS 2012

UM SOFISTA ANTOLÓGICO
Por Nivaldo Cordeiro


O PT está no poder há 11 anos e desde que desembarcou no Palácio do Planalto não perdeu tempo e pôs em andamento seu processo socialista de poder. É verdade que os governos anteriores já tinham marchado para o socialismo, mas o PT o fez em passo acelerado. Dizer que a economia brasileira é capitalista é mera força de expressão, na medida em que há elevada tributação, acelerada estatização, regulação draconiana, que transforma donos de empresas em vacas de presépio, insegurança jurídica e, sem esgotar tudo, o poder de compra do Estado, que em alguns mercados é quase monopsonistas. Fora do Estado não há processo econômico.
Os grandes grupos empresariais foram transformados em sócios do Tesouro. Inversamente, o Tesouro é agora o sócio dos grandes grupos empresariais, frequentemente na condição de majoritário. Ou indiretamente, via BNDES e fundos de pensão de empresas estatais. O socialismo em vigor é o mesmo de sempre, a união do Estado com os grandes grupos capitalistas, preconizada por Hilferding. É o fascismo econômico, a face possível do socialismo, sobretudo depois do fracasso das economias centralmente planificadas. O poder do monopólio de emissão de moeda e de compra e venda de moeda estrangeira dá ao Estado o controle total sobre o processo econômico.
Quando não é sócio é porque é dono ele mesmo da principal empresa, como no setor bancário. E regulamenta tanto que as decisões empresariais acabam por ser meros reflexos das decisões dos burocratas estatais.
Socialismo é essa união indissolúvel entre as empresas e os grandes grupos empresariais, uma estatização tácita do setor produtivo. Socialismo é a politização completa da economia, na qual o setor privada acaba completamente emasculado. Socialismo é a subordinação de tudo ao desejo dos burocratas do Estado e do partido governante. É o que temos no Brasil.
Por isso li com espanto o artigo de Vladimir Safatle na Folha de São Paulo (Capitalismo de espoliação). O autor demonstra saber muito bem o que houve no governo Lula, mas continua acusando o capitalismo das mazelas criadas pelo modo socialista/fascista de conduzir a economia. Aqui estamos diante de um caso clássico de paralaxe cognitiva, nos termos definidos por Olavo de Carvalho. A coisa toda foi criada pela corriola socialista do Sr. Safatle, mas ele só enxerga a culpa do capitalismo. É um propagandista agressivo da causa e não tem pejo de negar a realidade para continuar na sua propaganda.
Antes que digam algo: o fascismo sempre foi primo-irmão do socialismo e o tempo mostrou que ele é mais consistente do que aquilo que era defendido pelos que advogavam pelo planejamento central. Creio que estamos vendo na Europa e no mundo todo o esgotamento desse modelo econômico, que mata a vitalidade dos agentes. O fascismo tem a vantagem de manter o formalismo da liberdade de mercado, mas todos sabem que as liberdades se dão dentro de um jogo de cartas marcadas, em que o juiz é dono da bola, faz as regras, muda-as quando quer, é dono do campo e é dono dos times. Não há liberdade, na prática. Tudo enrijecido por regulamentos e licenças.
É claro que essa maneira de fazer as coisas acaba por encarecer os produtos e atrofiar a poupança. Receita da gênese da crise, com baixo crescimento do PIB e elevação da inflação. É o que nos informam as manchetes do dia. É o que sentimos na prática. Socialismo é perdição. Não há mais como ter “pibão”.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

RESGATANDO A HISTÓRIA


UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE A INTENTONA COMUNISTA

Carlos Ilich Santos Azambuja

“A verdade é revolucionária” (Trotsky)

A “glasnost” (transparência) de Gorbachev foi importante porque derrubou vários mitos. Um deles o de que a Intentona Comunista tivesse sido um movimento genuinamente brasileiro, gestado e levado adiante pelo Partido Comunista Brasileiro.
Não foi. A Intentona Comunista foi deflagrada após uma ordem expressa da Internacional Comunista, passada por telegrama. A cópia do original datilografado desse telegrama foi publicada por William Waak, que pesquisou os arquivos do Komintern e escreveu o livro “Camaradas”, editado em 1993, dando conta de detalhes inéditos, com base nos documentos a que teve acesso. A cópia do telegrama, escrito em francês, está na página 129 do livro.
O Komintern, do alemão “Komunistiche Internationale”, organismo com sede em Moscou, funcionou de 1919 a 1943, dirigido por um Comitê Executivo, o “EKKI”, do alemão“Execkutivekomite Der Kommunistischen Internazionale”, organismo composto por 50 membros. Na prática, as funções do “EKKI” eram desempenhadas por um Secretariado. Como um típico artifício da era stalinista, esse Secretariado, por sua vez, dependia do funcionamento de uma “Comissão Política”, composta por um número variável de 8 a 10 membros.
Todavia, mesmo esse pequeno grupo era julgado grande demais, e o comandamento efetivo concentrava-se na chamada “Uskaia Komissia”, a “Pequena Comissão”, que formalmente não existia dentro da estrutura do Komintern. A “Uskaia Komissia”era a responsável por todas as decisões relativas aos aspectos políticos, de Inteligência e de ligação do Komintenr com o Partido Comunista da União Soviética.
No entanto, apesar de tudo isso, o verdadeiro coração do Komintern batia secretíssimo. Era uma instância conhecida pela sigla, em russo, de “OMS” (“Otdel Mezahdunarodnykh Syazey”), “Serviço de Ligações Internacionais”, responsável, desde Moscou, pelo controle de uma vasta rede de agentes, aparelhos e informantes, supervisionando todas as missões secretas e o próprio Serviço de Inteligência do Komintern.
O “OMS” não era uma mera instância técnica. Desde a década de 20, financiava e controlava os partidos comunistas de todo o mundo, com verbas fornecidas pelo Estado soviético. Essa prática de financiar os demais partidos comunistas permaneceu inalterada por mais de 70 anos. Quando o Komintern e o “OMS” foram desativados, em 1943, sendo substituídos pelo Kominform, o Departamento de Relações Internacionais do PCUS assumiu as funções de ambos.
Ao final do ano de 1991, quando o PCUS foi tornado ilegal e fechado por Yeltsin, foram encontradas na sede do Comitê Central as listas da “ajuda financeira fraternal”. Listas que, como não poderia deixar de ocorrer, incluíam o Partido Comunista Brasileiro.
Voltando ao“EKKI” (Comitê Executivo do Komintern): Luiz Carlos Prestes foi incluído como membro desse organismo em 8 de junho de 1934, antes mesmo de sua filiação ao PCB - fato inédito no comunismo internacional -, o que só viria a acontecer em agosto desse ano. Já em 1935, Luiz Carlos Prestes era um assalariado do Komintern: 1.714,00, 11,9% das despesas do Komintern com a conspiração, no período de abril a setembro de 1935, era o salário de Prestes.
O “OGU”, do russo“Obyedinyonnoy Gosudarstvennoy Upravlenie” (“Diretório Estatal Unificado Popular”) mantinha, desde 1921, um departamento próprio de Inteligência no exterior, com assento dentro do “OMS”: a “OGPU”, polícia política do Estado soviético, sucessora da “CHEKA” czarista.
Todavia, existia ainda uma terceira organização de Inteligência soviética, que também deslocou agentes para o Brasil em 1935: o “IV Departamento do Estado-Maior do Exército Vermelho”, instância clássica da espionagem militar, hoje conhecida pela sigla“GRU”. A esse Departamento pertencia a alemã Olga Benário, que também utilizava os nomes de “Frida Leuschner”, “Ana Baum de Revidor”, “Olga Sinek”, “Olga Bergner Vilar” e “Zarkovich”, casada em Moscou com B.P.Nikitin, aluno da“Academia Militar Frunze”, designada para cumprir a tarefa de acompanhar Prestes em sua volta ao Brasil, em 1935.
Olga Benário, registre-se, nunca foi casada com Prestes e, acompanhando-o ao Brasil, cumpria uma missão que lhe fora atribuída pelo “IV Departamento”, acima citado.
Esse clube de revolucionários profissionais - os “homens do Komintern” - tinha poderes praticamente ilimitados de intervenção nos diversos partidos comunistas, bem como instruções muito precisas sobre como levar adiante as planejadas ações revolucionárias.
No que diz respeito ao Brasil, o PCB jamais se libertou de sua subserviência ao PC soviético. O PCUS, até ser posto na ilegalidade, em 1991, sempre manteve sob estreito controle a direção política do PCB, a forma como eram escolhidas as suas lideranças, seus processos de formação ideológica, bem como aquilo que sempre foi mais importante para o partido: o “auxílio fraternal” em dólares. Em 1990, último ano de funcionamento ativo do PCUS, essa “ajuda fraternal” ao Partido Comunista Brasileiro foi de US$ 400.000,00 segundo os arquivos do Kremlin, conforme divulgado pelo Tribunal Constitucional russo, que em 1992 julgou os crimes do PCUS.
Segundo o jornal“Konsomolskaya Pravda”, de 8 de abril de 1992, “somente em 1990” - ou seja, 5 anos depois da implantação da política de Gorbachev, consubstanciada nas palavras “perestroika” e “glasnost”- “o Partido Comunista da União Soviética ajudou, com mais de US$ 200 milhões os partidos irmãos do mundo, entre os quais o da Espanha e Portugal e quase todos da América Latina. Os mais beneficiados foram os partidos comunistas do Chile - que obteve US$ 700 mil -, da Argentina, Venezuela e El Salvador - com US$ 450 mil cada um -, e os do Brasil e Colômbia, com US$ 400 mil cada um”.
Sobre este tema, é contundente a entrevista do ex-diplomata da União Soviética no Brasil, Vladimir Novikov, coronel da KGB, que serviu em Brasília sob a fachada de Adido Cultural junto à embaixada soviética, nos anos 80: “(...) As últimas contribuições de Moscou para o PCB, por ordem do Comitê Central, foram para a campanha eleitoral de 1989, quando o deputado Roberto Freire foi candidato do partido à presidência da República” (revista “Veja” de 12 de julho de 1995).
Em 15 de setembro de 1935, às vésperas, portanto, da deflagração da Intentona Comunista, o “BSA-Bureau Sul-Americano”, que funcionava em Buenos Aires, recebeu do “EKKI”a determinação de passar a dirigir as atividades do PCB conjuntamente com Luiz Carlos Prestes - que, então, não era ainda membro da direção do partido - e“Miranda” (Antonio Maciel Bonfim), Secretário-Geral do PCB. Uma vez que Prestes era membro do Komintern, isso significou, na prática que o “BSA”, organismo do Komintern para a América Latina, assumia o comando do Partido Comunista Brasileiro.
Após a Intentona, a polícia brasileira identificou e prendeu apenas nove dos estrangeiros deslocados para o Brasil pelo Komintern. Todavia, era de 23 o número real de agentes do Komintern então atuantes no Brasil, e os nomes dos restantes 14 estrangeiros somente em 1993 viriam ao conhecimento público, graças ao trabalho de William Waak. Ou seja, ele, com o livro “Camaradas”,reescreveu a História do Brasil.
Foram os seguintes os agentes estrangeiros deslocados para o Brasil pelo Komintern com a tarefa de preparar as condições para a deflagração da Intentona Comunista:
- Inês Tulchniska, que também utilizava os nomes de “Inês Guralsky” e “Janina” :alemã; dava assistência política ao PCB no início da década de 30. Casada com Abraham Guralsky. Após a Intentona, passou uma temporada presa em Moscou, sendo desconhecido seu paradeiro posterior;
- Abraham Guralsy, que também usava os nomes de “Boris Heifetz” e “Rústico” : alemão; foi chefe do “BSA-Bureau Sul-Americano”, em Buenos Aires, no início da década de 30. Casado com Inês Tulchniska. Em dezembro de 1934 foi deslocado para o Brasil, procedente de Moscou. Morreu em Moscou, em 1960, após haver passado, como prisioneiro, pelos “Arquipélagos Gulag”;
- “Pierre”,não identificado; enviado ao Brasil em 1930 com a missão de “reformular a direção do PCB”;
- Arthur Ernst Ewert, que também usava os nomes de “Harry Berger”, “Albert”, “Castro” e“Negro”: alemão; casado com Elise Saborovsky. No início da década de 30, desde Montevidéu, ministrava assistência política ao Comitê Central do PCB. Em 1933 foi deslocado para a China, onde desenvolveu atividades até dezembro de 1934, quando foi mandado para o Brasil. Após a Intentona Comunista, foi preso no Rio de Janeiro, sendo libertado em 1945, em decorrência da anistia, concedida em abril desse ano pelo presidente Getulio Vargas, e viajou para a Alemanha Oriental , onde, em 1959, morreu;
- Elise Saborovsky, também conhecida pelo apelido de “Sabo”: alemã; casada com Arthur Ernst Ewert. Foi presa no Rio de Janeiro após a Intentona Comunista e, em 1936, deportada para a Alemanha, juntamente com Olga Benário;
- Jan Jolles, que também usava os nomes de “Alonso”, “Emílio”, “Eoles”, “Cazon” e “Macário”:alemão; deslocado para o Brasil em outubro de 1933; anteriormente, militou no Partido Comunista Argentino; saiu do Brasil em abril de 1935, para o Equador, via Chile, por incompatibilidade com Rodolpho Jose Ghioldi. Permaneceu uma temporada no Chile participando de atos terroristas, vindo a morrer no Equador;
- Boris Kraevsky : russo; atuou no Rio Grande do Sul no início da década de 30, com a tarefa de dar “assistência política” à Juventude Comunista do PCB. Destino ignorado;
- Rodolpho Jose Ghioldi, que também usava os nomes de “Autobelli”, “Luciano Busteros”, “Indio”,e “Quiroga”: argentino; membro do Bureau Sul-Americano, em Buenos Aires no início da década de 30; foi deslocado para o Brasil em dezembro de 1934 juntamente com sua mulher Carmen de Alfaya; após a Intentona Comunista foi preso e durante a II Guerra Mundial foi deportado para a Argentina, onde morreu em 1985;
- Carmen de Alfaya: argentina; casada com Rodolpho Jose Ghioldi; após a Intentona Comunista foi presa e, durante a II Guerra Mundial, deportada para a Argentina; em 1993 vivia na Argentina;
- Olga Benario, que também usava os nomes de “Frida Leuschner”, “Ana Baum de Revisor”, “Olga Sinek”, “Olga Bergner Vilar” e “Zarkovich “: alemã; membro do IV Departamento do Exército Vermelho (Inteligência Externa); casada em Moscou com B. P. Nikitin; viajou acompanhando Luiz Carlos Prestes ao Brasil em dezembro de 1934, cumprindo missão do “EKKI” (Comitê Executivo da Internacional Comunista), foi presa no Brasil em 6 de março de 1936, juntamente com Prestes, sendo deportada para a Alemanha, onde morreu em 1942, em um campo de concentração;
- Johann de Graaf, que também usava os nomes de “Jonny”, “Mattern”, “Franz Gruber”, “Pedro” e“Richard Walter”: alemão; profissão: “terrorista” (qualificação que lhe foi dada em Moscou, por seu instrutor no curso de “Trabalhos Especiais”); casado com Helena Kruger; foi deslocado para o Brasil em 1935; foi morto em Moscou em 1938, pela “NKVD”;
- Helena Kruger, que também usava os nomes de “Erna Gruber”, “Lena” e “Lee”: alemã; casada com Johann de Graaf; em 1935 foi deslocada para o Brasil junto com seu marido; teria cometido o suicídio em Buenos Aires, em 3 de dezembro de 1936, após ter sido mandada retornar a Moscou;
- Pavel Vladimirovich Stuchevski, que também usava os nomes de “Leon Jules Vallée”,“Paul” e “René”: russo; casado com Sofia Semionova Stuchskaia; ambos eram membros do Komintern residentes no Brasil, para onde foram deslocados em 1935; ambos chefiavam o único aparato do Komintern jamais instalado na América Latina, que chegou a utilizar sete pessoas, no Rio de Janeiro, duas em São Paulo e duas em Buenos Aires, onde funcionava o “BSA”; foi morto em 1938, em Moscou, pela “NKVD” ;
- Sofia Semionova Stuchskaia, que também usava os nomes de “Sofia Semionova Morgulian” e“Alphonsine Vallée”: russa; casada com Pavel Vladimirovich Stuchevski; morta em 1938, em Moscou, pela “NKVD”;
- Amleto Locatelli, que também usava os nomes de “Adolphe Hala”, “Walter” e “Bruno”: italiano; deslocado para o Brasil em outubro de 1935; morreu em março de 1937, participando da guerra civil espanhola;
- “Marga”: alemã não identificada; secretária de Arthr Ernst Ewert;
- Mendel Mirochevski, que também usava os nomes de “Losovski”, “Lovski” e “Juan” :polonês; deslocado para o Brasil em setembro de 1935; paradeiro desconhecido;
- Steban Peano, que também usava o nome de “Grassi”: argentino, assistente político do Comitê Regional do PCB em São Paulo a partir de 1934; paradeiro desconhecido;
- “Bruno”:italiano; nunca foi identificado;
- Maria Banejas, que também usava o nome de “Antonia”; argentina; companheira de Honório de Freitas Guimarães (“Martins”), Secretário de Organização do Comitê Central do PCB; paradeiro desconhecido;
- Victor Allen Baron, que também usava os nomes de “James Martin” e “Raimond”:norte-americano; especialista em comunicações; morto após ser preso pela polícia brasileira, sendo a morte dada como suicídio;
- Marcos Youbman, que também usava o nome de “Arias”: argentino; correio pessoal de Pavel; foi preso no Rio e desapareceu;
- “Carmen”:argentina; servia de correio pessoal de Pavel; não identificada;
Além dos 23 estrangeiros acima relacionados, Pavel Vladimirovich Stuchvski, que chefiava o aparelho do Komintern no Rio de Janeiro, coordenava as atividades de 7 brasileiros:
- Celestino Paravente: milionário brasileiro, comerciante de café em São Paulo;
- “Fonseca” :brasileiro, residente em São Paulo;
- Ferreira Filho: brasileiro radicado no Rio de Janeiro, que recebia correspondência destinada a Pavel, em seu endereço;
- Pompeu Magalhães: idem;
- Messias dos Santos, também conhecido como “Escarsema”; brasileiro; casado com Julia dos Santos; ambos eram caseiros de Luiz Carlos Prestes, no Rio de Janeiro;
- Julia dos Santos: brasileira; casada com Messias dos Santos; presa no Rio de Janeiro, no“aparelho” de Prestes;
- “Tomaz”:estudante brasileiro; correio entre Prestes e a ANL; nunca foi identificado.
Dos 23 estrangeiros acima relacionados, apenas 9 foram presos no Brasil, após a Intentona, sendo que os principais (Pavel Vladimirovich Stuchevski e Sofia Semionova Stuchskaia), pois chefiavam o aparelho do Komintern no Brasil, foram imediatamente liberados, por falta de provas, e abandonaram o Brasil.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O FUTURO ASSUSTADOR QUE NOS AGUARDA


Artigo muito esclarecedor, cujo título original é “As massas e o Estado em Ortega y Gasset”, escrito por Nivaldo Cordeiro, colunista do site Mídia sem Máscara, publicado em 09 de dezembro de 2012, que demonstra que a humanidade caminha rapidamente para o coletivismo, que invariavelmente alça ao poder uma ralé de governantes imorais, demagogos, populistas, arrogantes, inescrupulosos e que são meras marionetes nas mãos das massas ignaras que cultuam o Estado paternalista onipresente, com uma fome insaciável por benesses e vantagens para todos – algo impossível de ser atingido na prática – cujo desfecho é a insatisfação e revolta, que sempre termina sendo saciada com o sangue de bodes expiatórios, como já foi visto nos momentos mais escuros e tristes da história da humanidade.
 
 
Qual será a alternativa, meus senhores e minhas senhoras? Eu não sei. Sei apenas que, ficando como está, a humanidade transformará o Estado de instrumento de libertação em instrumento de escravidão e morte. Tudo contra o que Ortega y Gasset desesperadamente lutou.

No conjunto da obra de Ortega certamente esse tema é o mais difundido e é o maior triunfo científico de sua sociologia. Diante da sua filosofia não é o tema principal, todavia. O filósofo foi cirúrgico na sua análise e nas suas previsões nelas fundadas, daí ter encantado gerações de admiradores. Ao chamar a atenção do mundo para esse fenômeno – a emergência do homem-massa – Ortega o fez como um desesperado, que tinha em mira a sua querida Espanha, que via como invertebrada, isenta de homens egrégios. É na obra ESPANHA INVERTEBRADA, do início dos anos vinte, que poderemos enxergar por inteiro o que ele olhou e pensou. E previu com muita acuidade. O famoso REBELIÃO DAS MASSAS virá depois como um refinamento dessa sua obsessão com a vida de Espanha, seu discurso para os não espanhóis.
 
E por que me interessei pelo tema? Tomo aqui as palavras do próprio Ortega, escritas em 1934 no prólogo à quarta edição do ESPANHA INVERTEBRADA: “Alguém em pleno deserto se sente enfermo, desesperadamente enfermo. O que fará?” A imagem é primorosa, é como eu me sinto nesses tempos tormentosos. Por me sentir assim é que eu venho aqui falar a vocês. A minha alma sente o duplo efeito: a ameaça dos perigos dos tempos e a insuficiência de conhecimento alegada por Ortega, socraticamente, ele que era um grande mestre. Com mais rigor e propriedade faço minhas as suas palavras e lamento a minha própria ignorância.

O mundo hoje padece de crises e incertezas da maior envergadura, semelhantes àquelas vividas por Ortega no período em que escreveu o ESPANHA INVERTEBRADA e o A REBELIÃO DAS MASSAS. Novamente tempos de grandes perigos. “A história está novamente em movimento”, para usar a bela frase profética de Arnold Toynbee. Isso nos deveria fazer quedar, sem ter o que fazer diante do inevitável? De forma alguma. No mínimo, temos que imitar o filósofo e falar nem que seja às estátuas, como o fez em Paris. Ou às almas bondosas que aqui estão. Falar é sempre um grande remédio para a alma desesperada.

Por isso a atualidade de suas reflexões. Quero aqui me debruçar sobre três conceitos: homem-massa, Estado e o poder, ou seja, “quem manda no mundo”. Creio que estão contidas nessas expressões as preocupações do filósofo e a investigação para compreender esses três temas é que lhe deu as chaves para a compreensão da dinâmica política atual.

Não posso aqui deixar de me referir à recente eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos. Em tudo e por tudo sua eleição está carregada de significados. Quem ouviu o primeiro discurso do presidente eleito em Chicago, diante da multidão prostrada, não pôde deixar de se admirar e de se apavorar. Change,gritavam. E também: Yes, we can. Estamos aqui novamente diante de um líder de multidão que é ele mesmo a expressão do homem-massa tornado chefe de Estado. Sua característica principal, quando comparado com lideranças genuínas, é que chefes como Obama nãolideram a multidão, são por elas liderados. Daí porque essas palavras-força hipnotizam e apavoram.

Obama só tem a oferecer às massas o poder de Estado posto a serviço de seus apetites e estes não são banais, são impossíveis de ser atendidos: suprimir a lei da escassez, eliminar a crise econômica por medida legislativa e unilateralmente impor a paz quando a guerra se faz necessária. E, a fracassar a paz, como no passado, fazer a guerra pela guerra, no ativismo bélico motivado por razões econômicas e ideológicas, e não pelos nobres e racionais motivos geopolíticos.
Em resumo, Obama é o exemplo mais completo e acabado de chefe de multidões erguido aos ombros pelos homens-massas desde que Hitler foi eleito, em 1933. Vimos como acabou aquela experiência histórica.

A ideologia por excelência dos homens-massa é o socialismo. E a causa da crise são as medidas socialistas tomadas no passado. E, quanto mais a crise se agrava, mais medidas socialistas são pedidas pela multidão ao governante, que é seu espelho. A causação circular gera uma espiral política infernal que há um século redundou na pira em que queimou o mundo e os homens na estupidez da guerra e na busca desesperada da solução existencial – a perfeição em vida – pela ação burocrática do Estado. O apogeu dessa loucura foram os fornos crematórios e a bomba atômica, de triste memória.

O que viu Ortega? O surgimento das multidões urbanas, átomos individualizados que herdaram o melhor da tradição ocidental, mas quais filhos pródigos de pais ricos, nada fizeram para dispor do que receberam. E entre os muitos bens herdados dois se destacam especialmente: a técnica, originada da filosofia e da ciência empírica, que deu às multidões luxos jamais imaginados pelos ricos de outrora; e o Estado, esse portento agigantado pelos modernos administradores, poder comprimido posto nas mãos desses filhos das massas, homens notavelmente despreparados para seu autogoverno.
A AUSÊNCIA DOS “MELHORES”

A primeira grande desgraça que Ortega viu nos novos tempos foi o que ele chamou de “a ausência dos melhores”.Ortega entendia que há uma hierarquia natural, em que a minoria “egrégia”, em tempos sadios, é aceita como a liderança espontânea, cabendo às massas copiar-lhe o exemplo vital e obedecê-la. Quem é essa elite?

Ao ler a obra orteguiana fica sempre a pergunta impertinente. Seria o “nobre”assemelhado ao filósofo platônico? É possível que possamos ver aqui esse parentesco. No entanto, precisamos qualificar o sentido, pois essa minoria egrégia não deve ser confundida, para Ortega, com uma classe letrada ou de verniz sacerdotal, “filósofa”. Ortega repetidas vezes afirmou que é nobre aquele que dá mais de si, que se sacrifica, que supera as próprias restrições pessoais, pondo-se a serviço dos seus. É aquele que sabe das virtudes e as pratica. Não há, portanto, a idéia de uma aristocracia do conhecimento, mas do ser vital, que traz em si a história viva. Mesmo um homem simples pode ser um egrégio.

O homem nobre é o oposto do demagogo que vai à praça pública pregar facilidades para se tornar governante e que empresta sua oratória para dar voz aos vícios insaciáveis das massas.

Tampouco podemos falar de uma aristocracia de sangue. O filósofo desdenha dessa ideia e deixa claro que nobreza não pode ser transmitida geneticamente, como diríamos hoje. Nobreza de sangue é apenas uma caricatura jurídica da verdadeira nobreza, a repetição mecânica e um reconhecimento tardio do valor de um ser nobre que viveu no passado.
Então, o que é? Penso que para ele são aquelas pessoas que têm o sentido da história e da tradição. São aqueles que carregam o ônus das virtudes consagradas no Ocidente. São aqueles que fazem da história – mais das vezes a de tradição oral – o seu presente, fundando nela suas ações. Seu viver expressa essa atualidade do antigo. Fazem o dia a dia contemplando os milênios predecessores. Gente assim tinha ficado escassa no seu tempo, como escassa está atualmente. Os egrégios sumiram precisamente porque não há mais um passado vivo, mas a crença no presente eterno, que se perpetua.

Terá faltado a Ortega, por conta de seu agnosticismo, ligar esse “direito à continuidade” aos valores judaico-cristãos. Uma grande lacuna na sua produção teórica. A leitura atenta de sua obra, todavia, leva, de forma inescapável, a valorizar o cristianismo e colocá-lo, com o devido destaque, na coleção de requisitos para tornar alguém um ser egrégio. Tem sido, o cristianismo, o veículo pelo qual a atualidade histórica tem sido transmitida nos dois últimos milênios e não podemos deixar de creditar à Igreja Católica o mérito de reconhecer na filosofia clássica seu outro Testamento, conforme a análise lúcida do então jovem teólogo Joseph Ratzinger, no seu INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO, de 1967.

Essa consciência história é o impregnar-se com as virtudes da tradição, a temperança, o senso de justiça, a tolerância. Virtudes assim podem ser praticadas sem que haja a aquisição de cultura livresca, bastando que não seja quebrado o fio da tradição. Por isso que Ortega insistia que um dos direitos mais importantes da pessoa humana era o da “continuidade”, precisamente o de se ter um passado e de se viver o presente, construindo o futuro, sem perder de vista o legado precioso das gerações anteriores.

O IMPÉRIO DO HOMEM-MASSA

O homem-massa de Ortega é o oposto do ser egrégio como antes definido. É homogêneo, desprovido de passado. É o senhorito satisfeito. E reside aqui nessa constatação sua reprovação mais desabonadora: um ser sem passado é um ser sem história, recriado como que vindo do nada a cada geração. Junte-se a isso a confiança de quem domina as técnicas, capazes de grandes maravilhas, e aí teremos o personagem mais arrogante de todos os tempos.

O mundo que se apresenta a partir da segunda metade do século XIX é o das multidões, apinhadas nas grandes cidades. O impacto dessas aglomerações não pode ser minimizado. O ser individual perde a identidade, torna-se uma mônada indiferenciada, uma gota perdida em um oceano de gentes. Em oposição, agiganta-se o grande organizador dessas massas, o Estado, cujo papel muda radicalmente desde então, como veremos a seguir.
Ortega estava preocupado com a Espanha e a Europa, mas acabou por se tornar um profeta dos graves problemas do nosso tempo. Um escritor para o século XXI, para usar a expressão empregada por Vargas Llosa ao falar da obra de Cervantes. Ortega mesmo frisou que os problemas políticos seriam epidérmicos se a sociedade estivesse sadia, se seu corpo (as massas) e sua cabeça (a elite egrégia) estivessem interagindo como deve ser. Os fenômenos políticos, no entanto, podem ser elevados a alto grau de ameaça, a ponto de colocar a própria sobrevivência da humanidade em risco, se os tomadores de decisões de Estado foram meros representantes das massas insaciáveis. Os problemas políticos então deixam de ser epidérmicos e passam a ser o fator determinante para que a própria vida humana tenha continuidade. Os fornos crematórios de Hitler ainda não perderam de todo o calor, naquela loucura completa que foi o exercício do poder por um legítimo representante do homem-massa. Bombas atômicas estão prontas para uso em várias partes do planeta neste exato momento.

É nesse contexto que devemos tomar a célebre advertência de Ortega: “Eu sou eu e minha circunstância e se não a salvo, não salvo a mim mesmo”. Sábias e imorredouras palavras. Salvar as circunstâncias em política passou a ser um imperativo de nosso tempo. E salvar essa circunstância é resgatar o poder de Estado das mãos dos demagogos, dos chefes de multidão.

Os genocídios comunistas também não devem ser jamais esquecidos. O comunismo, assim como o nazismo, o fascismo e o progressismo, são expressões da política executada diretamente pelos homens-massa, que transformam rufiões oriundos da multidão em mandatários das nações. Homens sem passado e sem escrúpulos, que pregam facilidade e fazem a apologia de um futuro perfeito, em delirante fuga da realidade. Não são apenas crimes que esses homens praticaram, eles transformaram o Estado, de ferramenta para o bem-comum, na máquina de matar gente em larga escala. Talvez não haja na língua um vocábulo capaz de traduzir a hediondez do que estamos a ver.

O QUE É O ESTADO?

Podemos olhar o Estado de muitos ângulos e o que menos nos interessa aqui é vê-lo pela ótica jurídica. Alguém já disse que o Estado é uma ficção. Mas ficção não mata, mas a loucura, sim. O Estado é uma realidade ou uma ferramenta, como definiu Ortega y Gasset. Essa ferramenta é muito importante e sempre foi perigosa, porque o Estado é, antes de tudo, violência concentrada, capacidade de matar, de tributar, de prender, de sujeitar os indivíduos.

O Estado, quando conduzido por gente moralmente inferior, torna-se o grande algoz da humanidade. É isso que temos visto desde então. A própria guerra, cuja natureza nobre sempre foi cultuada pelo melhores, nos tempos hodiernos muda de caráter, passando de instrumento para a recuperação do equilíbrio político e da afirmação da segurança coletiva para a ação de destruição pura e simples de comunidades diferentes.O homem-massa anseia pela homogeneidade. A guerra passou a matar à escala industrial apenas para satisfazer ideologias cegas, motivadas pela falsa capacidade que teria de aperfeiçoar a humanidade. A busca da igualdade irracional motiva muitos dos morticínios contemporâneos.

O Estado, enquanto ferramenta, nos tempos antigos permitiu ao homem criar uma ordem e, a partir dela, deixar frutificar os seus engenhos, a própria liberdade ela mesma. Sem o Estado não haveria como construir um espaço de liberdade, em que o homem em geral pudesse construir seu próprio destino. Ao contrário do que pensam aqueles de tendências anarquistas, a alternativa ao Estado não é haver mais liberdade, mas sim, o seu oposto, o caos, que é a escravidão da alma. Importa, pois, não substituir uma ilusão por outra, ou seja, o Estado gigante (ou Total, como costumo chamar), pela sua ausência, mas sim, domesticá-lo e trazê-lo para proporções humanas. Fazer novamente o criador dispor de sua criatura.
O Estado só pode ser benigno quando conduzido pela elite egrégia, que carrega a tradição e sabe da missão e das limitações do ente estatal. A elite sabedora de que o Estado precisa, necessariamente, ser “mínimo”, como defenderam os liberais clássicos. A maior das mentiras da modernidade foi recriar o antigo mito sofista da igualdade, sobrepondo-se à necessidade mais terrivelmente ameaçada de todos os tempos, a liberdade. O homem-massa, quando alçado ao poder – e até mesmo para ser alçado ao poder – quer tornar o Estado o instrumento para a implantação da igualdade. Esse terrível engano está na raiz dos monstruosos crimes cometidos pelos coletivistas de todos os calibres.

O resultado dessa visão errônea é a estatização progressiva e inexorável da vida cotidiana. Tudo passou a depender do ente estatal. A moeda é do Estado, os regulamentos se multiplicam, a vida espontânea tende ao desaparecimento. Os homens são “coisificados”, tratados com seres incapazes de uma vida adulta e responsável. É o Estado-mamãe, que tudo provê, mas que não permite o menor desvio de seus regulamentos. Afinal, as leis são inexoráveis e quando se legisla sobre a banalidade da vida torna-se a própria vida uma prisão infame.

UMA CRÍTICA À DEMOCRACIA

Trago aqui aos senhores essas reflexões finais, tomando o quadro político que se apresenta aos nossos olhos. Acompanhamos agora as campanhas eleitorais no Brasil e no nos EUA. Pudemos ter uma clareza muito grande como a política pode ser perigosa, um nefasto exercício de auto-engano. O homem-massa eleitor é agora cortejado não para eleger os melhores partidos e as melhores pessoas para governar. Ele agora é chamado a escolher quem vai colocar “mais” e “melhor” o Estado a serviço de seus apetites, de suas idiossincrasias, de suas ilusões. “Change” e “Yes, we can” são mantras de mobilização de alto poder destrutivo, grávidos que estão de violência irracional.

Temos, pois, a resposta à terrível pergunta de Ortega: “Quem manda no mundo?” Os piores, os moralmente inferiores, os cegos, os potencialmente genocidas, são esses os que mandam no mundo. São os socialistas que mandam no mundo. Essa laia tem hoje nas mãos as rédeas do poder.

O discurso político de todo postulante aos votos parte do suposto da estupidez factual da maioria dos eleitores, que não compreende o Estado e nem os movimentos políticos, mas que julga ser seu “direito” ter todas as benesses que as classes políticas lhes prometem em troca do seu voto. É crença estabelecida que o Estado tem a obrigação de prover as necessidades básicas, do emprego à escola, da saúde à aposentadoria. Essa crença decreta o fim da democracia, que supõe o indivíduo capaz de prover-se a si mesmo, mesmo que os sistemas eleitorais formais permaneçam funcionando. Estamos a ver o suicídio do sistema democrático e nada lembra mais um Estado policial do que a forma assumida pelos Estados contemporâneos, em todos os lugares.

Vimos nesses exemplos precisamente o esgotamento da experiência da democracia de massas, em que o voto universal não está condicionado por uma estrutura partidária que respeite e proteja a continuidade dos valores da democracia liberal. Do jeito que as instituições estão organizadas, tanto aqui como nos EUA ou em qualquer lugar do mundo, a demagogia da igualdade ou – o que é a mesma coisa – a demagogia de que o Estado teria uma função beneficente (para usar a deliciosa expressão empregada por Ortega em texto de 1953) triunfou. Posso dizer que é o triunfo do totalitarismo, do Estado Total.

Qual será a alternativa, meus senhores e minhas senhoras? Eu não sei. Sei apenas que, ficando como está, a humanidade transformará o Estado de instrumento de libertação em instrumento de escravidão e morte. Tudo contra o que Ortega y Gasset desesperadamente lutou, conforme o testemunho de sua obra. Tudo contra o que todos nós devemos lutar. Não podemos esquecer jamais que vivemos tempo de grandes perigos.

Título original: “As massas e o Estado em Ortega y Gasset”, publicado em 09/12/2012

domingo, 9 de dezembro de 2012

AS QUATRO CASTAS


Sociopatia e revolução

Olavo de Carvalho
23/10/2006

 
         Com toda a sua presunção e arrogância, a ciência social moderna não conseguiu produzir nenhuma descoberta que se aproximasse, em exatidão e força explicativa, da doutrina hindu das quatro castas, da qual a concepção marxista da luta de classes é uma imitação caricatural e remota, daí derivando a impressão de veracidade que possa exercer sobre a mente simplória do “proletariado intelectual” universitário.
         É impossível, a quem tenha se dado o trabalho de estudar um pouco a explicação hinduísta do processo histórico, observar a seqüência das estruturas de poder que se sucedem ao longo da história ocidental sem notar que ela repete ipsis litteris a transição do governo brâhmana para o kshatryia, deste para o váishyia e deste para o desgoverno shudra e para a confusão dos párias que prenuncia ou o fim da sociedade ou o retorno à ordem inicial.
         Vou aqui resumir brevemente essa doutrina, não como ela é em sua pura formulação originária, mas na adaptação que lhe dei, em cursos e conferências proferidos desde 1980, para torná-la mais flexível como instrumento explicativo de processos histórico-culturais mais recentes.
         Os brâhmana são a casta intelectual, voltada à busca do conhecimento espiritual e à construção de uma ordem social que reflita mais ou menos a “vontade de Deus” – as leis que determinam a estrutura inteira da realidade.
         Os kshatryia são os guerreiros e aristocratas, que sobrepõem à estrutura da realidade a glorificação das suas próprias tradições dinásticas e a expansão do seu poder militar.
         Os váishyia são os burgueses e comerciantes. Buscam em tudo o lucro e a eficácia econômica, que tomam ilusoriamente como um poder efetivo, ignorando as bases militares e espirituais da sociedade e terminando por ser rapidamente destruídos pelos shudra. Estes são os “proletários”, no sentido romano do termo. Incapazes de governar-se a si mesmos, importam somente pelo poder do número, pela extensão quantitativa da “prole”.
         Os brâhmana caem pela sua dificuldade de manter-se fiéis à intuição espiritual originária, esfarelada entropicamente em confrontações doutrinais de um artificialismo sufocante, cada vez mais insolúveis e violentas.
A ascensão do poder aristocrático, com a formação dos modernos Estados nacionais, nasceu diretamente da necessidade de apaziguar os conflitos religiosos por meio de uma força externa, político-militar.
O governo kshatryia cai porque o establishment aristocrático-militar é um poder essencialmente centralizador e expansionista, que tem de se apoiar numa burocracia crescente cujos funcionários ele próprio não pode continuar fornecendo indefinidamente e que ele colherá, portanto, entre os membros mais talentosos das duas castas inferiores, aos quais dará o adestramento necessário para o exercício de suas novas funções administrativas, judiciais, diplomáticas etc. Daí nasce a “intelectualidade” moderna, como subproduto de um sistema de ensino voltado à formação de funcionários para o Estado. Por outro lado, tão logo a burocracia se consolida como meio de ascensão social, os candidatos a ela são sempre em número maior do que os cargos disponíveis, ao mesmo tempo que o ensino, sendo ele próprio um instrumento de seleção, tem necessariamente de atingir um círculo maior de alunos do que aqueles aos quais pode garantir um cargo no funcionalismo público. A burocracia com que o Estado kshatryia controla a sociedade torna-se assim uma bomba de efeito retardado. De um lado, não é preciso dizer que a intelectualidade burocrática logo tem em suas mãos o controle efetivo do Estado, sonhando em sacudir de seus ombros o jugo de uma casta aristocrática cada vez mais ociosa e dispendiosa. De outro lado, há a multidão dos rejeitados. Suas ambições foram despertadas pelo ensino, frustradas pela seleção profissional. Eles formam o contingente daquilo que denominei “burocracia virtual” – o exército crescente daqueles indivíduos relativamente adestrados, mas sem função. Seu único lugar possível na sociedade é dentro do Estado, mas o Estado não tem lugar para eles. Eles são a classe revolucionária por excelência, o personagem central da aventura moderna. Não demorarão a sonhar com um Estado amoldado às suas necessidades. Enquanto não conseguem criá-lo, ocupam-se de tagarelar infindavelmente sobre todos os assuntos, espalhando por toda a sociedade seu rancor e suas frustrações e, sobretudo, adornando-se usurpatoriamente do prestígio dos antigos brâhmana, dos quais constituem a caricatura invertida. Os “intelectuais” são o clero leigo da Revolução. Se vocês já ouviram falar em PT, sabem do que estou falando. Mais adiante voltarei a isso.
Por outro lado, o Estado aristocrático custa caro e não pode se manter indefinidamente com os recursos de uma economia agrária tradicional e simplória; a expansão econômica requer a mobilização de capacidades específicas que são as dos váishya. Os banqueiros e industriais fornecem a nova base econômica do Estado, arregimentando a mão-de-obra shudra em proporções jamais sonhadas antes e substituindo à antiga economia agrária o moderno capitalismo.
É nesse momento – e só sob esse aspecto -- que a diferença entre dois sistemas de propriedade dos meios de produção se torna determinante historicamente, criando uma situação peculiar que Karl Marx projetará enganosamente sobre todo o curso da História. Mas também é claro que a ascensão do capitalismo, em si, não apresenta risco para a classe aristocrática, a qual facilmente se adapta aos novos modos de adquirir riqueza e integra nas suas fileiras, por meio de casamentos e da distribuição de títulos nobiliárquicos, os novos ricos ascendidos sem nobreza ancestral, sine nobilitate (abreviatura s. nob., donde o termo “esnobe”). A essa adaptação corresponde, politicamente, a passagem do Estado monárquico absoluto à moderna monarquia parlamentar, um processo que não tem por que ser violento ou traumático, só vindo a sê-lo na França porque o crescimento excessivo da burocracia estatal tinha ocasionado fatalmente um crescimento ainda maior da “burocracia virtual” e transformado em puro rancor revolucionário as ambições frustradas da intelectualidade. Foi esta que fez a revolução. Não havia um só capitalista entre os líderes revolucionários, e a burguesia, como se viu na Inglaterra, jamais precisou de revolução nenhuma para se elevar socialmente a um status ao qual a própria aristocracia a convidava insistentemente. O conceito de “revolução burguesa” é uma das maiores fraudes da história das ciências sociais. Os componentes da burocracia virtual, por sua vez, não podem ser definidos economicamente. Seu único traço em comum era a educação que os diferenciava da massa. Vinham de todas as classes – do campesinato, do antigo clero, da pequena burguesia, dos setores empobrecidos da própria aristocracia. Não tinham unidade de origem, mas de situação social e ambições. A fórmula verdadeira da sua unidade residia no futuro: na imagem do Estado perfeito, investido de todas as virtudes que eles próprios julgavam encarnar. Vivendo de fantasia autoglorificante, compensação psicológica de sua posição social vexatória, não é de estranhar que se concebessem como herdeiros da autoridade intelectual dos brâhmana mas também se imaginassem os sucessores naturais da Igreja como porta-vozes e protetores dos pobres e oprimidos, os shudra. Por toda parte falam em nome da “ciência”, mas também da “justiça social”. Imaginam encarnar ao mesmo tempo a autoridade espiritual mais alta e os direitos espezinhados da casta mais baixa. Mas assim como não houve burgueses na vanguarda da “revolução burguesa”, não haverá proletários entre os líderes da “revolução proletária”. Toda a sociologia revolucionária é uma fraude ideológica destinada a encobrir o poder dos “intelectuais”. Estes não são casta nenhuma. São uma interface nascida acidentalmente do inchaço canceroso da burocracia, e por isso mesmo lutarão para fazê-la crescer ainda mais onde quer que adquiram os meios para isso. São, a rigor, párias – uma mescla confusa e delirante de fragmentos de discursos das várias castas. São a pseudo-casta sem função nem eixo, sociopática por nascimento e vocação.
A ascensão da burguesia capitalista não é um processo revolucionário. É um longo e complexo processo de incorporação e adaptação. O capitalismo francês nasceu e permaneceu raquítico por causa da Revolução, que veio com a expansão burocrática e continuou vivendo dela até hoje, numa nação que é, por excelência, o paraíso dos “intelectuais”. O capitalismo desenvolveu-se, isto sim, na Inglaterra, onde a aristocracia se adaptou suavemente às suas novas funções capitalistas, e na América, onde, sendo rala a presença da aristocracia de sangue, a própria burguesia capitalista se investiu do ethos heróico-aristocrático, gerando uma nova casta kshatryia. Observo, de passagem, que essa transfiguração da burguesia americana em aristocracia – o fenômeno mais importante e vigoroso da história moderna – jamais teria sido possível sem a profunda impregnação cristã da nova classe, que fazia dela, em contraste com a farsa dos “intelectuais”, a herdeira parcial e longínqua, mas autêntica, da autoridade brâhmana.
Na doutrina hindu, não há jamais um governo shudra. Os shudra são, por definição, governados e não governantes. O sujeito pode nascer shudra mas ao ascender a funções de importância já é um “intelectual” (se Lula continuasse torneiro mecânico, seria apenas torneiro mecânico). O que pode haver é o governo dos intelectuais fazendo-se passar por vanguarda shudra e, é claro, oprimindo os shudra mais do que nunca, para que criem a base econômica de uma burocracia estatal ilimitadamente expansiva.
Economicamente, o governo shudra, ou socialismo, só tem existência verbal. Em 1921, Ludwig von Mises deu a demonstração cabal de que a economia totalmente estatizada é inviável e de que, portanto, todo regime autonomeado socialista nunca passaria de um capitalismo disfarçado sob a carapaça de ferro da burocracia estatal. A história não cessou de lhe dar razão desde então.
Dessa breve exposição é possível tirar algumas conclusões que a experiência histórica comprova abundantemente:
1. Onde quer que a burocracia estatal se torne a via predominante de ascensão social, como aconteceu na França do século XVIII ou na Rússia do século XIX, a burocracia virtual tende a crescer indefinidamente e a tornar-se geradora de pressões revolucionárias. Muitas nações modernas aliviam essas pressões criando um número indefinido de sinecuras culturais e universitárias para integrar e “oficializar” de algum modo a burocracia virtual, mas isso, por um lado, é um paliativo caríssimo, que só pode ser custeado por um capitalismo pujante, o que supõe, precisamente, que a Revolução seja abortada em tempo; por outro lado, a burocracia virtual oficializada pode se satisfazer por algum tempo com suas novas funções na sociedade capitalista, mas a ascensão social mesma acabará por torná-la ainda mais presunçosa e arrogante. Isso explica que precisamente nas nações onde os intelectuais têm as melhores condições de vida eles sejam os mais rancorosos inimigos da sociedade que os nutre e lisonjeia, mas em compensação não consigam ou talvez nem queiram desferir o golpe mortal nessa sociedade, limitando-se a constituir um fator de corrosão estrutural permanente, neutralizado, no conjunto, pelo progresso técnico e pelo crescimento capitalista.
2. Onde a burocracia virtual ainda não perfeitamente oficializada tenha como principal veículo de integração social um partido político, esse partido, encarnando a seus próprios olhos ao mesmo tempo a suprema autoridade intelectual e os direitos de todas as vítimas reais ou imaginárias da injustiça social, se colocará necessariamente acima das leis e instituições, arrogando-se todos os direitos e todas as virtudes e não reconhecendo julgamento superior ao seu.
3. Toda esperança de integrar esse partido no processo democrático normal será repetidamente frustrada, pois ele jamais entenderá sua participação nesse processo senão como concessão temporária – e, em si mesma, repugnante – às condições que impedem a consecução dos seus objetivos.
4. A consquista do poder total será sempre o objetivo e a única razão de ser desse partido, que tentará toda sorte de golpes de Estado e ao mesmo tempo verá como golpe de Estado qualquer tentativa, por mais tímida e limitada, de impedi-lo de chegar a seus objetivos. Exemplos não faltam no Brasil. O mais recente é aquele em que os líderes do partido dominante pregam abertamente a resistência violenta a uma possível derrota nas eleições, ao mesmo tempo que denunciam literalmente como “golpe de Estado” a simples revelação jornalística do dinheiro que usaram num truque sujo contra o adversário (vejam a maravilha de retórica invertida em http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/394501-395000/394778/394778_1.html).
5. Como a função primordial do partido revolucionário, por baixo dos mais variados pretextos ideológicos, é justamente criar um Estado burocrático para servir a seus próprios membros, é normal e inevitável que esse partido, uma vez investido do poder estatal, encare o Estado como sua propriedade, usando-o para seus próprios fins e não vendo nisso a menor imoralidade. A burocracia virtual é sociopática por nascimento e por definição; e sua forma de governo, tão logo tenha as condições de implantá-la, é e será sempre a sociopatia organizada.
6. A afinidade do partido revolucionário com o banditismo comum é algo mais que conjunção temporária de interesses.. Na perspectiva da burocracia virtual, o único mal no mundo é ela não ter o poder absoluto, é existir uma sociedade que a transcende e não a obedece. Todos os outros males, se enfraquecem essa sociedade e favorecem a conquista do poder total pelo partido revolucionário, são bens. A auto-idolatria solipsística do chefe de gangue e a do líder revolucionário são exatamente a mesma, com a leve diferença do requinte intelectual um pouco maior a favor desta última. É ridículo dizer que um partido como o PT “se transformou” numa quadrilha de delinqüentes. Ele nasceu delinqüente.
7. A insistência dos adversários em fazer de conta que esse partido pode participar honradamente do processo político normal levará sempre a condições de “guerra assimétrica”, em que um dos lados terá todos os encargos, e o outro todos os direitos.

 

***

 

PS – Para aqueles que tiveram a infelicidade de nascer membros da burocracia virtual, só há três caminhos de vida possíveis: (1) integrar-se na farsa revolucionária e sair alardeando que são benfeitores da humanidade; (2) cair para a marginalidade, a doença mental, a autodestruição ou o banditismo; (3) compreender sua situação histórica, lutar para escapar a uma condição social essencialmente farsesca e para adquirir, por meio do estudo e da autodisciplina espiritual, a dignidade do verdadeiro estatuto brâhmana, o que implica renunciar a todo poder político e a todas as vantagens psico-sociais da participação na intelectualidade revolucionária. Economicamente, sobreviver da atividade intelectual fora do esquema revolucionário de proteção mútua é um desafio temível.
         Para os que nasceram váishyas, o desafio é resistir ao canto-de-sereia revolucionário e impor o capitalismo como modo de vida moralmente superior. Isto não é possível sem o cultivo da disciplina kshatryia e a aceitação dos encargos heróicos de uma nova casta nobre, o que implica a absorção, mesmo longínqua, do legado brâhmana. A luta no mundo moderno é entre os váishyia e os burocratas virtuais – isto é, entre aqueles que alimentam o Estado e aqueles que se alimentam dele. Se os primeiros se deixam hipnotizar pela cultura revolucionária, estão liquidados, e, com eles, os shudra, que perdem o estatuto de trabalhadores livres para ser escravos da burocracia comunista.